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domingo, 1 de março de 2015

O ESPAÇO DO SIGNO DE AQUÁRIO VII


Furacão Isabel. Fonte: FreePik.

Transfiguração

No nível usual da interpretação astropsicológica, Urano é visto como um poder transformador que agita, perturba, revoluciona e dinamiza. Seu efeito profundamente perturbador tem conotações destrutivas sempre que o homem estiver tão concentrado na preservação da estrutura de sua consciência e de suas reações típicas à vida – a preservação do ego – que qualquer poder que desafie a excelência dessa estrutura do ego lhe parece, e na verdade torna-se de fato, completamente destrutivo e perturbador. Os eventos uranianos são, portanto, para o ego, o que as violentas revoluções sociais são para as classes superiores que se aferram obstinadamente a seus privilégios obsoletos e anacrônicos.

Mas, em outros casos, o desafio uraniano às estruturas do ego e aos privilégios sociais-religiosos, em lugar de manifestar-se exteriormente como uma sublevação das profundezas reprimidas e não-diferenciadas do inconsciente da pessoa – ou do povo em geral – é percebido como uma espécie de Visitação do espírito. Pode vir como uma Presença assustadora de luz e de poder ou como um relâmpago do céu. Pode ser uma visão, uma convocação para a ação, uma súbita compreensão da providência seguinte a tomar ou de uma distante meta. Coisas estas que também podem suscitar uma tamanha sensação de insegurança, de medo ou de total desalento em face do vazio espiritual dos anos já passados, que o ego cerra completamente suas estruturas de consciência, recusando-se a ver, incapaz de suportar o poder ou as implicações da revelação; e o choque pode ser tão grande, às vezes, a ponto de submeter o ego a uma triste deterioração, ao menos durante certo tempo.

A Estrela é a lente cósmica; mas a Imagem de Deus está dentro do indivíduo em quem “ego” não se tornou “alma”. O ego era o administrador-governante das respostas estruturais da consciência às experiências da vida – uma entidade tipicamente masculina preocupada com os problemas de forma, técnica e maestria sobre a matéria e a sociedade. E quando, por fim, os raios da Estrela são capazes de alcançar o núcleo de seu ser e de projetar-se sobre ele (ou despertar dentro dele) a Imagem Divina, então o ego-homem torna-se a alma-mulher cheia da luz da divindade potencial.

Urano, daí em diante, opera como um poder universal circundando a semente divina com a personalidade. Urano proporciona a essa semente um quadro de referência espiritual, mais ou menos como o útero materno envolve o embrião com um campo magnético de radiações de vida. A personalidade que se tornou uma “mãe do Deus Vivente”, sendo desse modo impregnada desse campo uraniano do espírito criativo, resplandece de luz. Essa é a Transfiguração, não um misterioso evento que aconteceu apenas a um homem, mas um estado de ser alcançado após o ponto crítico da Estrada Iluminada – o evento Saturno, após o qual o indivíduo se experimenta como um templo para o desdobramento da semente de Deus.

Aquele que faz essa transição com êxito passa simbolicamente do estado de consciência de Pedro para o de Jesus. Estará então pronto para a Transfiguração, que sela, ao mesmo tempo, o glorioso destino da semente divina (o Cristo Interior) e a rendição final (a Crucificação) do ego; uma rendição necessária ao desenvolvimento, a partir da semente divina, do novo organismo do espírito, o veículo imortal do Eu celeste.

O indivíduo que alcança esse estágio uraniano da Estrada Iluminada é agora mais que homem. Ele não só experimentou a realidade da semente divina dentro de si próprio; agora essa semente de luz brilha através da carne. O indivíduo transfigurado tornou-se um centro focal para a liberação do poder da Mente Universal, Ouranos, o deus criativo do Espaço universal. Os homens são convocados a ouvi-lo, a contrair de sua radiância o contagiante fervor de alguém em quem Deus está nascendo, cuja alma está se enchendo a transbordar pelo espírito – assim como, amiúde, numa mulher grávida parece transbordar um estranho poder de resplendente vida.


Urano é o raio, mas é também o poder criativo do Som místico que, segundo a velha tradição da Índia, penetra todos os espaços. Esse Som, como o raio, pode matar; mas ele é também a Voz de Deus dentro da alma impregnada pelo espírito. Precisa ser ouvida; porquanto o espírito é sempre e eternamente aquele que preenche todas as necessidades, que restaura a harmonia onde quer que a mente-ego e a matéria se tenham apartado. Na verdade, não pode haver real manifestação do espírito salvo se estiverem presentes duas polaridades e, estando presentes, forem integradas.

O que ocorre dentro da alma do indivíduo ainda precisa ser representado no nível coletivo da sociedade. Nessa fase do drama entre o indivíduo transfigurado e os governantes materialistas, cobiçosos de poder de uma sociedade desalmada, precisamos ver a operação lógica da Transfiguração. O indivíduo transfigurado precisa elevar-se de todo sentido de subserviência e escravização interior a qualquer “mãe” que lhe abrigou o crescimento como um organismo de consciência. Ele precisa provar sua Filiação ao Pai por efeito de perecer para todas as “mães” terrenas – para tudo quanto é coletivo e não-individualizado, tradicional e aprisionante.

Mas nesta morte é a coletividade quem finalmente se incumbe do repúdio. As classes privilegiadas repudiam o indivíduo transfigurado cujo exemplo contagioso e radiante de espírito lhes ameaça o privilégio, mas cujo ser espiritual é agora energizado e sustentado por outro poder – o poder de Urano, do espaço criativo.

A Crucificação livra o ente-Cristo da sociedade que o rejeita; ela o liberta do passado. Daqui por diante, ele pode ser unicamente um precipitado do futuro no presente em evolução. Ele pode ser um poder desembaraçado e criativo do espírito. Pode ser o futuro criativo focalizado num “organismo” de luz e espírito e através desse “organismo”.

É este o grande mistério, ou paradoxo espiritual, no centro da atividade de Urano. Para o homem egocêntrico comum, Urano é o poder revolucionário, sublevador, o poder que acaba com a paz e que destrói a atitude de confiança absoluta no passado aparentemente seguro. Depois, Urano aparece para a mente mais livre como o inspirador, o revelador, o fecundador espiritual, o transfigurador. Finalmente, ainda há uma função que precisa ser preenchida. Urano deve evocar o Adversário do indivíduo que ele transfigurou.

Sempre há elementos em qualquer personalidade que não podem sr transfigurados, que resistem à metamorfose até a última crise. O poder do Deus interior previsa vencer o medo e a insegurança do que quer que, tendo restado do velho ego, está desalentado em face da perspectiva de ver crucificadas as estruturas da personalidade que ele próprio construiu.

Tríptico Astrológico, D. R.

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O ESPAÇO DO SIGNO DE AQUÁRIO VI


O Homem vitruviano. Fonte: The Worlds of Leonardo da Vinci.

Descontentamento

O sucesso não constitui um fim em si mesmo. No entanto, para a sociedade e para homens completamente limitados pelos horizontes sociais, o cumprimento eficiente das responsabilidades de um cargo (ou ministério) por seu detentor geralmente pode ser considerado como uma conclusão satisfatória de um ciclo de experiência individual. Sob a ótica coletivista, o indivíduo, tendo atingido a posição em que possa melhor servir a comunidade, passa a estar, daí por diante, completamente identificado com essa posição. Absorvido em seu trabalho e por seu trabalho, a pessoa plenamente socializada não deve ter outra preocupação além de levar a sociedade, mediante sua tarefa cotidiana, a uma condição de plenitude e felicidade cada vez maiores. Ela se transforma literalmente numa “célula” de um organismo mais vasto, e perde-se como indivíduo característico. Como unidade produtiva perfeitamente eficaz – uma unidade de trabalho – ela encontra sua própria realização na felicidade comunal de sua sociedade.

Nesse paraíso coletivista o valor do eu individual dissolve-se na vasta maré da evolução humana. Um pólo da existência humana teve sua atividade reduzida ao mínimo; da mesma forma que o outro pólo – o homem como ser coletivo – é quase de todo repudiado ou esquecido no paraíso individualista. Os dois extremos levam ao automatismo e à petrificação dos valores; e, a longo prazo, à rebelião.

Progresso criativo para a humanidade e para cada homem significa a constante expansão de valores; não a expansão de mecanismos sociais nem a de egos individuais. Valores e significados precisam crescer em amplitude, extensão, profundidade e altura. Devem crescer eternamente em termos de abrangência, a fim de que a vida repita muitas vezes seu triunfo sobre a morte e para que o espírito se renove ciclicamente através de integrações de ser cada vez mais vastas. O crescimento de valor e significado requer a transformação gradativa de todas as formas que sustentaram o sentido de valor e a busca de significado focalizados dentro dos limites de modelos estabelecidos de pensamento, sentimento e comportamento.

Quem é que despreza a bem-aventurança social ou o conforto individual, e inicia febrilmente a busca de algo situado mais além, que importa em dor, angústia e revolução?

É o indivíduo em quem surgiram novas forças e uma nova visão, que as formas coletivas e as tradições sociais não poderiam conter; e, não as podendo conter, se reprimiram ou isolaram contra elas. É o indivíduo cuja receptividade para o incessante fluxo criativo da vida lhe tornou impossível isolar-se contra seja o que for que está vivendo e palpitando e dar-se por satisfeito com os conteúdos reconhecidos e coletivamente autorizados de uma personalidade social respeitável. É o indivíduo que prefere antes estar eternamente vazio e à procura, do que amarrar-se a receitas rígidas de plenitude e de contentamento.

Devem surgir no zênite de uma era indivíduos que recusem ser tolhidos pelos limites sociais de um sucesso padronizado e satisfeito com os conteúdos do tipo humano gerado por sua sociedade e cultura. Neles queima o fogo do “descontentamento divino”. Do descontentamento à rebelião, estes grandes iconoclastas – quebradores de normas e destruidores de ídolos – movem incansavelmente, ou talvez de modo sutil, suas cruzadas contra um sentido imbecil de plenitude e de harmonia social epidérmica. Eles esfacelam a crosta da respeitabilidade. Solapam todas as muralhas fortificadas e dilaceram o afetado contentamento das almas que nada contêm senão agonia ou lembranças mortas. São explosões de repulsa emocional ou de fervor apaixonado. Eles se fazem tragicamente vazios, a fim de que um novo sentido de plenitude possa advir das profundezas psíquicas e mentais escancaradas para os grandes impulsos que impelem as almas às aventuras sem fim, à procura do ouro ou à procura de Deus.

Esses homens são eternos insatisfeitos. Eles celebram no ritual revolucionário cujo deus é o Descontentamento, e cuja hóstia sagrada é a morte do reformador. Para eles, não pode haver plenitude onde tantos precisam viver vidas vazias no lado sombrio da sociedade e da cultura. Como podem conhecer a satisfação onde milhões padecem fome?

Eles também estão esfaimados de uma terrível, implacável fome – fome de amor, talvez, para além das filigranas das emoções socializadas; fome de Deus, que exorbita as religiões satisfeitas de suas virtudes conscientes e de seus Apocalipses patenteados; fome do “Homem” – o alvo eternamente em retrocesso da civilização sempre trôpega sob o fardo dos “bons” homens que abominam o “melhor” muito mais do que abominam o mal.

Para esses indivíduos que sentiram as agruras do descontentamento essencial, também há uma grande prova: A que fim farão servir esse descontentamento? Eles tiveram sua realização, e nessa realização acharam o vazio. Demonstraram seu valor social como indivíduos; mas isso lhes pareceu indigno, porque fictício – morto, porque isolado em oposição a toda nova vida. Então, o que dizer a isto? Haverão de dramatizar a própria insatisfação e incessantemente intoxicar a todos com sua fome? Gesticularão e gritarão sua revolta, empurrarão para o lado toda restrição e, quais românticos poetas e “almas malditas”, forçarão a sociedade a ver neles a própria sombra de sua respeitabilidade, as pustulentas ulcerações que mascara com morais e com disfarces? Ou bem usarão seu poder e autoridade, ou qualquer posição social que lhes calhe, para impelir ao ponto de ruptura os círculos viciosos da tradição, de modo que esses círculos, sempre reiterados em monótono automatismo pelos homens bons, se convertam em espirais, cada vez mais abertas ao espírito criador?

Produzir eficientemente o que a sociedade está acostumada a aceitar – com insuficientes variações originais para estimular o interesse e fazer face à concorrência – dá a um homem amigos, honrarias e tudo quanto decorre do conforto e contentamento social. Transformar e regenerar o costume e a tradição é tarefa ingrata, mesmo para o mais capaz e prudente. E renovar-se a si mesmo através da condução de uma vida de responsabilidade social e de liderença é trabalho que requer a maior vigilância e a mais inabalável determinação, bem como um vigor elástico de caráter e de espírito.


O problema essencial, porém, deve ser enfrentado em outro nível. Para transformar um círculo em espiral é preciso aplicar-lhe uma força centrífuga constante. Em todos os pontos, o espaço deve vencer o centro; a atração da Galáxia (a companhia das estrelas) deve sempre triunfar sobre o poder gravitacional do Sol; o desejo de inclusividade deve suscitar conteúdos novos (e a princípio mal acolhidos) no interior das estruturas da sociedade e da personalidade.

Essas estruturas devem desfazer-se daquilo que é obsoleto a fim de admitir o ingresso da novidade turbulenta e assustadora dos espaços “excêntricos”. Abandonar velhos conteúdos é experimentar descontentamento. Abrir-se para uma nova substância num ato de criatividade abrangente e de receptividade positiva voltada para o espaço é experimentar alegria. A alegria nasce do descontentamento; a felicidade é a essência da realização dentro da forma.

Aqui também o correto equilíbrio entre espaço e centro, entre descontentamento, que é pai da criatividade, e a estabilidade-na-forma, que dá origem à felicidade, é a única chave para o desenvolvimento harmonioso. Uma ênfase no individualismo leva ao crescente descontentamento entre os homens; a inflexível estabilidade coletiva de uma sociedade planejada – por exemplo, a da Índia dos brâmanes anterior ao século VI a.C. – leva a uma maior felicidade social, mas, igualmente, à estagnação do espírito. Onde quer que haja desenvolvimento real, numa personalidade ou numa sociedade, este desafio criativo tem sido eficaz. Sem ele, só pode haver ossificação, automatismo e o círculo vicioso do hábito.

Há, não obstante, duas alternativas. Se o círculo do desempenho social tiver grande vitalidade, ele poderá transformar-se em espiral sem perder a forma e a proporção harmoniosa; do contrário, poderá ziguezaguear em acessos distorcidos, asism como indivíduos explosivos ou massas revolucionárias vencem pela violência o ímpeto de uma vida incrustada em hábitos inflexíveis e no formalismo amedrontado. No primeiro caso, o elemento de significação é conservado vivo mediante renovações periódicas; no segundo, as significações petrificadas e os símbolos ou categorias sociais opressivos, tendo-se tornado quebradiços pelo culto automático de um povo escravizado, também perderam a capacidade de transformação interna. Precisam ser despedaçados, ou, quando nada, renovados implacavelmente.

Onde quer que permaneça a forma, pode também haver significado. A destruição ou a temporária obliteração da forma tem por consequência inevitável a perda de significado. Mas forma não é formalismo; consistência não implica rigidez; harmonia comunal não requer necessariamente a negação da liberdade do indivíduo e a supressão dos espíritos rebeldes que incorporam a vontade de penetrar espaços mais vastos e atingir uma inclusividade maior. A espiral constitui a forma perfeita, não o círculo; e a espiral resulta da integração de uma liberação do espírito de dentro para fora e um movimento circular. Essa integração é Vida, na evolução universal e em significado cósmico.

A maioria dos homens colhe com a sociedade os frutos dos processos sociais produtivos; só uns poucos, impelidos por um descontentamento interior, estão prontos a incendiar essa colheita de modo que, por consequência, seja liberado o poder para novas aventuras. Suas vidas são Adventos perpétuos; suas mentes, piras funerárias de onde ressurge a Fênix, símbolo da imortalidade. Eles são os que “abalam e movimentam” o destino humano, os Espíritos Prometéicos que levam “fogo” aos homens apaixonados pelas “sementes” e unicamente empenhados no cultivo delas. Deles é o ritmo do fogo, a fome eterna da chama. A sociedade os agrilhoa, tortura-os – enquanto a rapacidade cúpida incessantemente se regala com os poderes que eles liberaram e com a riqueza que criaram – deixando-os vazios e exangues.

E no entanto, eles são Vitoriosos. Iluminadas por sua luz, novas gerações desenvolvem mentes mais amplas. Nascem novas sociedades. Sonhando com eles, os jovens se aventuram rumo a grandiosos espaços constelados.

Tríptico Astrológico, D. R.

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O ESPAÇO DO SIGNO DE AQUÁRIO V


Aquário. Fonte: Blog Bluntly Said.

O serviço

A tarefa fundamental da humanidade durante as décadas e os séculos vindouros é, portanto, o desenvolvimento de um tipo de ser humano capaz de assumir segura e construtivamente a responsabilidade que a gestão do poder acarreta; assumi-lo com segurança, para si próprios como indivíduos e para a sociedade em geral. Assumir essa responsabilidade, não em proveito próprio ou em benefício de algum grupo individual, mas para o bem do todo; assumi-lo livremente, conscientemente, alegremente – na verdade, como deuses em formação – esta deve ser a diretriz dos homens de amanhã, para que a humanidade sobreviva.

Como sempre acontece quando um novo ciclo, uma nova religião, uma nova atitude para com a vida e um novo tipo de ser humano estão aparecendo no horizonte do tempo, eles parecem brilhar com uma luz extraordinária e prodigiosa. Eles condensam, em virtude de sua novidade, a esperança difusa de todos os homens insatisfeitos com o presente e impacientes com o passado. Sobre eles, todos os sonhos se focalizam. Eles chegam como portadores de dons há muito prometidos, como pregadores de “boas-novas” há muito suprimidas.

Desse modo, inclinamo-nos a idealizar todas as características relacionadas à simbologia zodiacal de Aquário. Esquecemo-nos que o homem ou a mulher cujo tipo básico é descrito por esse hieróglifo do céu tem um grande encargo a cumprir e uma grave responsabilidade; e o encargo e a responsabilidade nem sempre são assumidos conscientemente e nem sempre a pessoa se desincumbe deles com êxito.

Uma palavrinha conhecida, adequadamente compreendida, exprime a natureza essencial dessa qualidade espiritual: servir. A humanidade dessa Nova Era só pode ser fiel a seu elevado destino se os homens e mulheres que deverão ser as raízes e a flor de sua civilização conseguirem incorporar em suas vidas e em sua filosofia o ideal da “prestação de serviço”; se não buscarem maior glória que a de ser conhecidos como “servos” da humanidade – o que também significa “servos de Deus”, pois mediante o serviço prestado à humanidade dá-se a conhecer Deus. E Ele será conhecido como Homem.

O poder só pode acarretar frutos benéficos para aqueles a quem ele é confiado tendo em vista o bem do Todo e que, assim, servem ao Todo. O monopólio do poder, seja de que forma for, só pode acabar em autodestruição. Os homens ainda precisam aprender esta lição por inteiro.

É, pois, necessário que os fatos sejam tão coercivos que os homens, finalmente, reconheçam que todo o poder é do Todo, pertence ao Todo, e está confiado a alguns indivíduos apenas para que eles lhe governem a liberação com eficiência bem nítida e especializada para o bem do Todo.

Todas as coisas basicamente humanas fluem de uma raiz comum de nossa condição humana para os milhares de canais abertos pela vontade, pela visão e pelo talento dos homens de coragem e de pensamento de todos os quadrantes. No entanto, aos que são os primeiros pertence a oportunidade sem paralelo de servir de veículo para o influxo original e originador do espírito criativo, de que provém todo poder na Terra e no céu.

Esse influxo do espírito criativo constitui a característica essencial da Nova Era que leva a assinatura astrológica de Aquário. A tarefa dos que também tiverem essa assinatura impressa em sua identidade é obter a capacidade de liberar esse poder que flui de grandes altitudes, seja ele físico ou psicológico; liberá-lo não para obter lucro, mas como prestação de serviço, assim como o coração libera o sangue que inunda seu ventrículo esquerdo – para que o corpo todo seja nutrido com o oxigênio vital e com as poderosas substâncias químicas de suas glândulas internas.

Conquistar essa capacidade de liberar poder na prestação de serviço ao Todo significa atingir maturidade psicológica. E o maior inimigo da maturidade é o Medo. É unicamente o medo que mantém o adolescente escravizado a atitudes infantis. Só o medo impede que as nações e os governantes reais – se não oficiais – das nações compreendam que a humanidade em seu conjunto é o único quadro de referência em relação ao qual as realizações de qualquer nação passam a fazer sentido e adquirem seu pleno valor humano. O medo ocasiona a agressão e desvia as mentes dos homens para as torturas – o medo e o sentimento doloroso de frustração que lhe está sempre associado e que engendra desespero e, depois, autodestruição.


Com a chegada da Era de Aquário, a humanidade deverá alcançar o limiar de sua maturidade. Ser amadurecido significa ser capaz de assumir o controle eficiente do poder que é do homem e cumprir o próprio dever como verdadeiro servo da grande Companhia, a humanidade. Na verdade, este é o grande dilema humano; pois o homem é aquele ser misterioso cheio de conflitos, temores e esperanças, que precisa escolher o modo como usará o poder, porque ele tem poder de escolha.

Quando vemos o tipo de pessoa reformista com mente voltada para o social, talvez excessivamente zeloso, idealista ou justo a seus próprios olhos que revele traços de Aquário, nós nos inclinamos a considerá-lo um caráter excelente em cujas mãos o futuro do mundo estará seguro. Podemos mesmo desejar que houvesse mais tipos assim. No entanto, precisamos compreender que, na maioria dos casos, essas pessoas ainda têm que enfrentar sua maior prova.

O aquário – o Homem simbólico do zodíaco – está transportando sobre seus fortes ombros uma urna cheia de água. Essa água pode significar vida ou morte para aquele que é dotado do dom; pois, a menos que o homem tenha recebido dentro de sua própria alma o batismo que lhe torne eternamente impossível beber dessa água e deixar a terra sedenta, que Deus dele se apiede! Muitos são tentados e bem poucos escolhem a Cruz. Muitos conhecem técnicas e administração, mas poucos responderam a seu Deus o desafio crucial: Para quê?

Todo idealismo e bondade dos homens – aliás, toda sua moralidade e suas observâncias religiosas tradicionais – podem não ser nada quando confrontados com uma crise de poder. O que é preciso é uma finalidade espiritual. O que é necessário é que os indivíduos se tornem conscientes da meta evolutiva que está imediatamente à frente da humanidade. O que é preciso é uma total identificação da imaginação e da vontade humanas com essa meta, e a fé que faz essa identificação funcionar.

O poder está aqui, sobre nós – tremendo, espantoso. Precisa ser usado.  Seu uso precisa ser administrado: e os homens da Nova Era saberão administra-lo. Mas para que fim? Se estivermos receptivos à voz do espírito criativo dentro de nós, não poderá haver senão uma resposta: servir. O homem de Aquário em todos nós precisa alcançar esse nobre estágio de desenvolvimento e tornar-se “o Servo”. A humanidade é a Grande Órfã. Precisa ser alimentada de poder. É preciso dar uma finalidade ao poder. E só pode haver uma única finalidade: a paz. Finalidade, poder e paz. Aqueles a quem falte qualquer dessas coisas nos séculos futuros não estará completo.

O poder não deve ser objeto de apego, nem o amor. O poder deve ser usado. O amor é para ser usado. A vida é para ser usada. Tudo o que nos é dado tocar, sentir, experimentar deve ser usado, deve ser gerido. Precisa ser gerido para servir a um propósito que seja legítimo, real, divino – simplesmente porque é o único propósito evolutivo que faz sentido. Nada faz sentido, se não for adiante em atividade criativa maior, mais profunda, mais nobre e mais abrangente; e todo movimento para diante exige que um poder seja buscado, usado e gerido.

Todo indivíduo ou grupo está eternamente sendo julgado pelo uso que faz do poder. Nós estamos sendo julgados hoje por nossa recusa coletiva a transformar nossas vidas e nossa civilização no sentido de ajustá-las aos novos horizontes que o novo poder, ou energia, nos abriu.

As portas da Nova Era foram arrombadas com violência. Os homens de pouca fé só conseguem enxergar o horror da morte através da fresta que se nos abriu. Mas para aqueles cujo coração e espírito assumiram a responsabilidade de criar o futuro; para aqueles que aceitaram a alegria e o martírio que advêm com a verdadeira posição de servir ao mundo, o espaço descreve uma curva no céu em direção de um limiar. Além dele, está Deus feito Homem; o Homem, sustentando nos ombros a urna de poder infinito, como Jesus uma vez suportou a cruz; o Homem vertendo – ah! vertendo profusamente – sobre todos quantos têm delas necessidade e que por elas anseiam, a alegria, a riqueza, a plenitude que nos podem pertencer se tão-somente tivermos a audácia de aceitar o desafio do poder e da paz, nossa natureza integral entoando cânticos de prestação de serviço ao Todo.

Tríptico Astrológico, D. R.

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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

O ESPAÇO DO SIGNO DE AQUÁRIO IV



O símbolo da cor Gris

A cor cinzenta ou gris, composta, em partes iguais, de preto e de branco, designaria, na simbologia cristã, e segundo F. Portal, a ressurreição dos mortos. Os artistas da Idade Média, acrescenta esse autor, dão ao Cristo um manto gris quando ele preside ao Juízo Final.

Na genética das cores, parece que é o cinzento que é percebido em primeiro lugar. E é ele que fica para o homem no centro de sua esfera de cores. O recém-nascido vive no gris. No mesmo gris que vemos quando fechamos os olhos, mesmo na escuridão total. A partir do dia em que a criança abre os olhos, todas as cores a envolvem mais e mais.

A criança toma conhecimento do mundo da cor no curso dos seus três primeiros anos. Habituada ao cinza, identifica-se com o cinza. Quando se encontra no meio de outros seres e objetos, seu gris se torna o centro do mundo da cor, seu ponto de referência. Ela compreende que tudo o que vê é cor. A predominância da cor no mundo das formas explica o mimetismo no mundo animal e a camuflagem no mundo dos homens.

O homem é cinzento em meio a um mundo cromático, representado pela analogia com a esfera celeste na esfera cromática. O homem é o produto dos sexos opostos e se encontra situado no gris central, entre cores complementares, que formam uma esfera cromática harmônica, pois todos os pares de contracores se acham num equilíbrio perfeito. A imagem imperfeita nessa esfera cromática pode ser concretizada por um ato material.

O homem procurou sempre concretizar as cores perfeitas que ele imagina e vê nos seus sonhos. Tem necessidade da cor e da contracor, justamente por ser o meio gris entre todas as cores complementares, entre o azul e o amarelo, o verde e o vermelho, o branco e o preto, as passagens de uma a outra e dos inumeráveis pares de contracores que têm, invariavelmente, no meio deles, o gris mediano.

O homem consciente, no centro do mundo da cor, da esfera cromática perfeita, ideal, onde se encontram as cores reais e irreais em perfeito equilíbrio, o homem sente que se encontra em um campo de forças cromáticas extremamente poderosas, no meio desse espaço tridimensional de pares de contracores e, ao mesmo tempo, no meio de um outro espaço semelhante ao primeiro, mas sem equilíbrio, em que todas as cores, numa esfera cromática homogênea, são repartidas regularmente. Esse conjunto de duas esferas é vivo, porque dotado de pulsação. É a pulsação do homem no centro gris mediano.

A atitude do homem no centro gris muda segundo as condições do seu caráter e da sua vida. Ele encontra, na zona circular que contém as doze tonalidades principais, os quatro tons absolutos e seus intermediários, um reflexo muito sensível do Zodíaco. Cada um se volta, então, inconscientemente, para a região cromática à qual pertence, sua cor de predileção. Grupos de homens, povos inteiros, podem voltar-se em conformidade com isso e encontrar uma atitude semelhante ao centro gris. A cor se torna significativa para o homem, para os povos, e mesmo, talvez, para a humanidade, de maneira irracional e imprevisível.

Eletricidade. Fonte: Value Invest Asia.

O simbolismo do Homem

O homem não deixou de a si mesmo se conceber como símbolo também. Em inúmeras tradições, desde as mais primitivas, ele é descrito como síntese do mundo, modelo reduzido do universo, microcosmo.

Ocupa o centro do mundo dos símbolos. Diversos autores, dos sábios dos Upanixades aos teólogos cristãos e aos alquimistas assinalaram as analogias e as correspondências entre os elementos do composto humano e os elementos que compõem o universo, entre os princípios que governam os movimentos do homem e os que regem o universo.

No Atharva-Veda, o homem das origens, como uma espécie de Atlas, a carregar o mundo, é considerado um pilar do cosmo, que tem por missão principal escorar o Céu e a Terra, constantemente ameaçados de dissociar-se e desintegrar-se. O homem é, assim, centro e princípio de unidade, e se identifica, finalmente, com o princípio supremo.

Para os chineses, toda individualidade humana é um complexo e corresponde a uma determinada combinação de elementos. Os componentes não são jamais concebidos, nem como unicamente espirituais nem como unicamente corporais. Toda natureza é, então, o produto de uma certa dosagem e de uma combinação mais ou menos harmoniosa.

O homem é espírito e carne. Mas existem seres chamados homens que são privados de espírito, sentem-se à vontade num mundo afastado de Deus e não sofrem de qualquer nostalgia transcendental.

O gnóstico Basílides se propõe a seguinte questão: serão eles homens no sentido verdadeiro da palavra? Basílides nega-o categoricamente. Basílides fala em tom profético de um tempo por vir no qual não haverá mais homens espirituais mas apenas e exclusivamente ignorantes, que rejeitarão tudo o que diz respeito ao espírito. Cada um se contentará com o mundo em que vive, e ninguém se interessará pela vida eterna. Nesse momento, se um homem falar de vida espiritual será tão ridicularizado quanto um peixe que quisesse pastar com os carneiros no alto da montanha. Quando essa ignorância se espalhar pela terra, não haverá mais busca nem anseios no plano espiritual. O mundo ficará de todo privado da nostalgia do espiritual.

Tal é, segundo Basílides, o fim do homem espírito e carne. Para ele, dia virá em que o homem será unicamente de carne. Nesse caso, ele corre o risco de perder a sua imortalidade.

Dicionário de Símbolos, J. C. & A. G.

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O ESPAÇO DO SIGNO DE AQUÁRIO III



O símbolo Urna

Nas artes, a urna é também o vaso de onde flui a água e simboliza a fecundidade dos rios.

Os votos, as águas, as cinzas, misturados numa mesma urna, fazem dela, definitivamente, o símbolo da unidade: unidade social, unidade do princípio vital (água), unidade do ser humano; de um modo ainda mais geral, a unidade da diversidade, através do perpétuo escoamento e da sucessão da vida e da morte.


O simbolismo do Vaso e da Taça

O vaso

Na literatura medieval, o vaso contém o tesouro (o Graal, as Litanias, etc.). O vaso alquímico e o vaso hermético sempre significam o local em que se operam maravilhas; é o seio materno, o útero no qual se forma um novo nascimento. Daí vem a crença de que o vaso contém o segredo das metamorfoses.

O vaso encerra, sob diversas formas, o elixir da vida: é um reservatório de vida. Um vaso de ouro pode representar o tesouro da vida espiritual, o símbolo de uma força secreta.

O fato de o vaso ser aberto em cima indica uma receptividade às influências celestes.

O Aguadeiro. Fonte: Ayay.

A taça

O simbolismo tão amplo da taça (ou copa) se apresenta sob dois aspectos essenciais: o vaso de abundância e o do vaso que contém a poção da imortalidade. No primeiro caso, ela é muitas vezes comparada ao seio materno que produz o leite.

O simbolismo mais geral da taça aplica-se ao Graal do Medievo, cálice que recolheu o sangue do Cristo e que contém simultaneamente – as duas coisas se identificam, no fundo – a tradição momentaneamente perdida e a bebida da imortalidade.

O cálice contém o sangue – princípio de vida – sendo, portanto, homólogo do coração e, em consequência, do centro. Ora, o hieróglifo do coração é uma copa. O Graal é, etimologicamente, tanto um vaso quanto um livro, o que confirma a dupla significação do seu conteúdo: revelação e vida.

O Graal era também chamado vaissel: símbolo do navio, da arca contendo os germes do renascimento cíclico, da tradição perdida. Observar que o crescente da lua, equivalente à taça, é também uma barca. É ainda a expressão da imortalidade ou do conhecimento obtido ao preço da morte no estado presente, logo, do renascimento iniciático ou supra-humano.

O rito da comunhão, ao qual as taças são destinadas, e que realiza a participação virtual no sacrifício e na união beatífica, pode ser encontrado em diversas tradições, notadamente na China antiga (consideramos aqui somente as aparências exteriores dos ritos, não sua significação dogmática). É, sobretudo, um rito de agregação, de união consanguínea (como o juramento do sangue das sociedades secretas), mas também símbolo de imortalidade.

A taça é, ainda, um símbolo cósmico: o Ovo do mundo separado em duas formas, duas copas opostas, das quais uma, a do Céu, é a imagem do domo. Os Dióscuros usam, cada um, uma dessas metades, como cobertura da cabeça. No Japão, a troca das taças (Sakazuki o Kawasu) simboliza a fidelidade.

Mas a ênfase principal do simbolismo da copa recai, na Bíblia, sobre o destino do homem: o homem recebe da mão de Deus o seu destino como uma copa ou como contido numa copa. Pode tratar-se de uma taça transbordante de bênçãos ou do fogo do castigo divino; pode ser “o cálice do vinho do furor da sua ira”. É por isso que o instrumento de que Deus se serve para castigar (um homem, um povo, uma cidade) pode ser comparado a uma taça. Quando Jesus fala do cálice que estava para beber e que pede ao Pai que o afaste não é só a morte que ele assim designa mas em geral o destino que Deus lhe propõe e que ele aceita com conhecimento de causa.

A taça simboliza não só o continente mas a essência de uma revelação. Na literatura mística do Islã, a taça simboliza geralmente o coração, entendido no sentido de intuição, de esfera mais sutil da alma. O coração do iniciado (arif), que é também um microcosmo, é muitas vezes comparado à taça de Djmashid. Esse rei lendário da Pérsia possuía, ao que se diz, uma taça na qual podia ver o universo.

A taça do amor ou o vinho da alegria são dados aos santos privilegiados, no Paraíso: Os santos, vindos de longe, depõem seus cajados à porta e são convidados a entrar, para beber do vinho, vertido na taça por escanções (os anjos); depois recebem, à luz dos círios, a saudação de um ser misterioso, que surge de súbito, sob os traços de um jovem de solene beleza. E eles se prosternam diante desse Ídolo, que contém em si a Essência divina. A taça (cálice), símbolo da preparação para a comunhão na adoração e no amor.

Dicionário de Símbolos, J. C. & A. G.

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A mutilação de Urano por Saturno, de G. Vasari e C. Gherardi. Fonte: Wikipedia.

O simbolismo do planeta Urano

Este planeta, descoberto em 13 de março de 1781 por William Herschel, representa, na astrologia, a força cósmica que provoca as mudanças e agitações repentinas, bruscas e imprevistas, das intervenções, das criações originais e do progresso.

O espírito novo que há dois séculos inspira a humanidade provém principalmente deste astro, que é, aos olhos da astrologia, o verdadeiro criador do mundo moderno, fundado sobre os princípios da Revolução Francesa, no plano social, e sobre a maquinaria e a industrialização, na esfera do trabalho.

O seu domicílio é o Aquário, que divide com Saturno. No organismo humano, ele rege os nervos e as doenças provocadas por sua influência; são doenças nervosas, os espasmos, as cãimbras e os enfartes.

O processo uraniano situa-se, originalmente, como um momento de cólera do Caos: é o despertar do fogo primordial. Diante do deus dos oceanos há, portanto, o deus do céu, cuja ambição primeira é libertar-se do indiferenciado, do oceânico e, consequentemente, elevar-se, altear-se, como se quisesse individualizar-se ao máximo.

Tudo o que liberta o homem da terra, que o eleva ao céu, que é o seu império mitológico, e o orienta em direção ao absoluto do esforço vertical está sob os seus auspícios, desde o mais simples arranha-céu até o foguete interplanetário, passando pelo avião e pelo satélite artificial...

Este processo uraniano desenvolve-se sobre a linhagem do homem-prometeu; este é verdadeiramente o raptor do fogo celeste, instintivamente voltado para as proezas e as façanhas; trata-se sempre de bater um recorde, de fazer mais ou de ir mais longe que o anterior. Possuído pelo instinto de excessivo e de força, é o homem do progresso em busca de uma nova era, se não fracassar na aventura de aprendiz de feiticeiro.

No fundo desse processo distingue-se o arquétipo da hiperindividualização, que particulariza o ser humano numa originalidade superpersonalizante, geralmente no paroxismo do Ego, em busca da mais explosiva unidade, e voltado para o absoluto.


O deus Urano

Deus do Céu, na teogonia de Hesíodo. Símbolo de uma proliferação criadora sem medida e sem diferenciação, que destrói, por sua própria abundância, tudo que engendra.

Caracteriza a fase inicial de toda ação, com sua alternância de exaltação e depressão, de impulso e queda, de vida e morte dos projetos. Vem a simbolizar desse modo o ciclo dos desenvolvimentos.

Deus celeste das religiões indo-mediterrâneas, um dos símbolos da fecundidade, ele é representado pelo touro. Mas essa fecundidade é perigosa. Como bem observou P. Mazon no seu comentário à Teogonia de Hesíodo, a mutilação de Urano põe fim a uma fecundidade odiosa e estéril, introduzindo no mundo, com a aparição de Afrodite (nascida da espuma ensanguentada do membro gerador uraniano), a ordem, a constância das espécies, e tornando assim impossível toda procriação desordenada e nociva.

Com base na mitologia grega, André Virel caracterizou perfeitamente as três fases essenciais da evolução criadora. Urano (sem equivalente romano) situa-se na primeira fase: a efervescência caótica e indiferenciada, denominada cosmogênese.

Cronos (Saturno) intervém na segunda fase, a da esquizogênese: ele corta, divide. E quem, com um golpe de foice sobre os órgãos de seu pai, põe um fim a suas secreções indefinidas. Representa um tempo de suspensão. Ele é o regulador que bloqueia toda criação do universo... o ponto fixo da onda estacionária, a vida no seu lugar, sem avançar, sempre idêntica a si mesma. Ele é o tempo simétrico, o tempo de identidade.

O reino de Zeus (Júpiter) caracteriza-se por um novo início, mas um início organizado e ordenado, e não mais anárquico e sem controle, que André Virel chama autogênese.

Depois da descontinuidade da época precedente, cujas paradas, tempos, medidas, fixações permitiram uma primeira classificação, a continuidade da evolução recomeça. É o momento em que o homem toma claramente consciência de si mesmo, ao mesmo tempo em que toma consciência das relações de causalidade, da delimitação dos seres e das coisas que ele apreende nas suas analogias e suas diferenças... A história mitológica dos deuses esclarece (então) a história dos homens.

A mitologia é assim apresentada como uma psicologia projetada no mundo exterior, não apenas uma psicologia individual, como a entendia Freud, mas também uma psicologia coletiva, como a concebe Jung.

Dicionário de Símbolos, J. C. & A. G.

Mosaico de Urano e Geia. Fonte: Wikipedia.

O mito do deus Urano

O céu personificado, filho de Gaia (a Terra), ou de Áiter.

Na teogonia órfica Urano e Gaia eram irmãos, filhos de Nix (a Noite), e em outra genealogia Urano era omarido de Gaia, com a qual teve numerosos filhos, entre os quais estavam os seis Titãs e as seis Titanides, os três Cíclopes e os três gigantes Hecatônqueires.

Gaia, desgostosa de tanto procriar, pediu aos seus filhos proteção contra a insaciabilidade amorosa de Urano. O único a concordar com seu pedido foi Cronos (o filho mais novo), que, armado com uma foice afiadíssima, preparou uma emboscada contra o pai, castrou-o e lançou-lhe os testículos no mar.

A mutilação teria ocorrido no cabo Drêpanon, cujo nome derivaria da foice de Cronos (Drêpanon em grego – foice). Noutras fontes o local teria sido a ilha de Côrcira (a atual Corfu), que se chamou sucessivamente Drêpanon, Feácia e Esquéria; essa ilha, cuja forma lembra uma foice, seria a própria foice de Cronos lançada no mar, e os feácios, seus habitantes, teriam nascido do sangue de Urano.

Numa terceira versão a mutilação teria ocorrido na Sicília, cuja fertilidade seria uma consequência do sangue divino derramado sobre o seu solo.

Numa versão divergente da lenda, de fundo racionalista, Urano aparecia como o primeiro rei dos atlântios, habitantes de um território extremamente fértil situado nos confins do Ocidente, nas margens do Oceano, reverentes para com os deuses, que teriam nascido entre eles, e generosos para com os povos vizinhos. Eles viviam isolados uns dos outros, e Urano reuniu-os numa cidade amuralhada, ensinando-lhes o uso dos frutos cultivados e a maneira de guardá-los, além de outras instituições úteis.

Sendo um observador atento dos astros, Urano previa muitos fenômenos ocorrentes no mundo e introduziu o calendário com base no movimento do sol e da lua, instruindo os atlântios a respeito das estações que se sucediam ano após ano. Esses homens, até então ignorantes do movimento eterno dos astros e maravilhados com o acerto das previsões de Urano, imaginaram que ele fosse um deus, e depois de sua morte passaram a tributar-lhe honras divinas, dando o seu nome ao próprio céu.

Atribuiam-se a Urano e a Gaia duas profecias: a de que o reinado de Cronos terminaria quando ele fosse vencido por seus próprios filhos, e a de que Zeus deveria precaver-se contra a criança que teria de Métis. Receoso dessa profecia, Zeus engoliu Métis quando ela estava grávida de Atena.

Dicionário de Mitologia Grega e Romana, M da G. K.


A lenda de Geia e Urano

Geia primeiro engendrou o estrelado Urano. Ela o fez semelhante a si mesma, para cobri-la e envolvê-la por todos os lados, tornando-a assim um lugar seguro para os deuses venturosos.

Após se unir a Urano, Geia concebeu: Oceano, de profundos redemoinhos, Ceos, Crio, Hiperíon e Jápeto; Teia, Reia, Têmis, Mnemósina e Febe, de dourada coroa, além da amorosa Tétis. Depois desses, nasceu o astuto Crono, o mais jovem e o mais terrível dos filhos, que odiou seu vigoroso pai.

E todos os filhos que nasceram de Geia e Urano, filhos terríveis, foram odiados desde o começo por seu pai. Assim que nasciam, ele os escondia nas profundas entranhas de Geia, impedindo-os de sair à luz.

Urano se comprazia por seus feitos malignos, enquanto a prodigiosa Geia gemia, sob sua opressão. Então Geia criou uma espécie de pedra dura e cinzenta, com a qual entalhou uma grande foice e, ousadamente, revelou aos filhos o plano que havia concebido, dizendo o quanto estava aflito o seu coração.

“Filhos meus, gerados por um pai brutal! Se me atenderdes, juntos nos vingaremos do cruel ultraje de vosso genitor, uma vez que foi ele quem primeiro concebeu ações tão indignas.” Assim disse Geia, mas como o temor se apoderasse de todos eles, nenhum disse uma palavra sequer.

Apenas o grande Crono, o de mente tortuosa, teve coragem e respondeu à sua prudente genitora com estas palavras: “Mãe, eu posso me encarregar dessa empresa, pois não reverencio nosso pai, de maligno nome, por ter sido ele quem primeiro tramou ações indignas”.

Assim ele falou, e a prodigiosa Geia sentiu grande alegria em seu coração. Colocou o filho escondido, pronto para uma emboscada, e revelou seu ardiloso plano, armando suas mãos com a foice afiada, entalhada como um aguçado dente.

Com a chegada da noite, aproximou-se Urano, desejoso de amor, e estendeu-se sobre Geia, cobrindo-a completamente. Então, de seu esconderijo, o filho estendeu a mão esquerda e o tocou. Com a mão direita, tomou a foice, semelhante a um enorme dente, e cortou rapidamente os genitais do pai, lançando-os a esmo para trás de si.

Teogonia, H.

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