sábado, 20 de dezembro de 2014

O ALVO DO SIGNO DE SAGITÁRIO VIII


Estátua de Júpiter. Fonte: Asztronostra.

Reconversão

No homem comum, que só superficial e hesitantemente é um “indivíduo”, e cujo comportamento, sentimentos e pensamentos são, em grande parte, controlados pelas compulsões inconscientes dos instintos genéricos, pelas tradições coletivas e pelas emoções de massa, a personalidade é um produto final. Ela representa o florescimento de uma sociedade e de uma cultura, de uma certa ancestralidade e de um ambiente específico; e como tal, ele depende, para sua energia e mais ainda para seus motivos e metas, de fatores fundamentais dentro da vida da coletividade humana da qual constitui uma expressão diferenciada. A personalidade do homem que é parte integrante de sua sociedade e de seu grupo cultural ou de sua classe, e que se sente – consciente ou inconscientemente – enraizado em sua coletividade, é fundamentalmente semelhante à obra de arte de um gênio criador; e o criador, no caso, é a coletividade.

O direito e o poder de participar da obra da civilização como pessoa (ou “personagem”) ativada pelo espírito e iluminada pela Estrela só os adquire o homem que libertou sua consciência dos modelos e impulsos coletivos, e que, desse modo, se tornou, ao menos por algum tempo, um indivíduo “isolado”. Reorientação, repolarização, reavaliação implicam esse estágio de “isolamento”; mas o isolamento não significa, para nós os modernos, sair a meditar, à maneira iogue, embrenhando-se numa floresta e “longe de tudo”. Refere-se a uma mudança de consciência, que pode ocorrer bem no meio de uma grande multidão – conquanto o isolamento pode tornar o processo, durante certo tempo, muito mais fácil.

Quando pelo menos a tentativa desse processo é completada, a personalidade do homem que sofreu a metamorfose é basicamente diversa da do homem ordinário. É mais “semente” do que “flor”. Toda polarização da semente está voltada para o futuro. À medida que cresce dentro da flor, ela leva não só essa flor como toda planta efêmera a morrer. Analogamente, o aparecimento de certo tipo de indivíduos, altamente individualizados e iluminados pelo espírito numa sociedade, revela o fato de que essa sociedade alcançou seu ápice como organismo cultural de origem terrestre.

A obra ou função da nova personalidade não é a de perpetuar ou provocar o florescimento da sociedade e da cultura que condicionou o desenvolvimento da velha personalidade; mas, isto sim, lançar as bases de uma nova sociedade e cultura que aparecerá no devido tempo.

Uma religião e um certo tipo de organização social constituem a base dupla sobre a qual se desenvolve uma cultura. Ambas representam a resposta coletiva de um grupo de homens aos desafios básicos de seu ambiente terrestre; e essa resposta revela o modo de operar da função de Júpiter, dentro da comunidade e em todos os homens e mulheres que participam de uma atividade essencialmente coletiva. Mas, quando o homem se torna um indivíduo relativamente isolado e desenraizado, preocupado em exprimir seu ego e seu ponto de vista diferenciado (ou sua “singularidade”) ele volta as costas para os impulsos jupiterianos em sua personalidade – e quanto mais o faz, tanto mais isolado e singular ele se sente.

Então, as energias genéricas da natureza humana e os poderes culturais de sua sociedade se tornam convertidos a seu propósito egocêntrico. Eles lhe alimentam a autoexpressão; ou então sua revolta contra eles lhe dá um estímulo emocional expendido no repúdio a eles. O iconoclasta ou revolucionário social usa a função de Júpiter de um modo negativo. Nele, os fatores jupiterianos se tornam “alcoólicos”; isto é, seu senso social e sua fé religiosa fermentam e se desintegram. A energia que lhe sustinha a vida normal como homem da coletividade é agora convertida para a produção da guerra – a guerra que ele, como um ego, move contra uma sociedade, uma religião e uma cultura que se tornaram suas inimigas. Quando essa guerra deixa de ocupar a consciência do homem que passou pela crise da metamorfose do ego (ou por uma “catarse”) é necessário passar por um processo de reconversão.

A única coisa possível a uma semente é germinar e transformar-se, desse modo, numa nova planta com raíz e haste próprias – com a chegada da primavera! Para tanto, a semente precisa tornar-se um agente da vida da espécie como um todo.


Cada indivíduo que se tornou livre da escravização inconsciente e compulsiva a sua raça e sociedade é como uma semente; mas uma semente plenamente consciente, individualizada e exclusiva em sua Identidade imortal. No entanto, todos esses indivíduos sui-generis participam de uma comunidade espiritual, estejam claramente conscientes disto ou não; assim como as estrelas são unidades radiantes dentro da Galáxia, ou, no simbolismo astrológico, dentro de uma Constelação.

A principal dificuldade no estágio inicial dessa obra é que o indivíduo tem de planejar de novo uma rota para uma meta, cujo caráter preciso ele ainda não pode compreender com clareza; enquanto que a força de hábitos e a tendência ao automatismo e à atuação rotineira ao longo de diretrizes que já se revelaram, se não seguras, pelo menos familiares em todos os aspectos, são ainda muito fortes.

Visão, entendimento, o registro raramente claro das experiências de alguns poucos indivíduos que enfrentaram os mesmos problemas, e acima de tudo fé, são os únicos engenheiros que podem reedificar os instrumentos da personalidade, adaptando-os ao que se percebe como sendo necessidades novas. A nova energia, representada por uma transcendente função de Marte, está disponível; no entanto, parece haver obstáculos infindos a seu uso eficaz – e talvez seguro. A principal dificuldade é a infamiliaridade e a falta de precedentes. É preciso improvisação a cada passo – e a quase inevitável consequência disso é a tensão pela preocupação com os resultados, excessiva focalização da atenção e a incapacidade de deixar as coisas acontecerem por si.

Sob a camada de problemas superficiais, e sua causa básica, jaz o fato de que todo significado e propósito da personalidade precisam ser totalmente renovados. A personalidade – repito – não deve mais ser a eflorescência de uma tradição coletiva ou cultural enraizada em atitudes instintivas e inconscientes; nem pode durar significativamente com base numa rebeldia egocêntrica e em arrogante autoexpressão.

O que fazer então? Apenas uma coisa: reconverter a personalidade como instrumento da operação do espírito. A evolução humana é sempre uma série de passos para diante. O espírito é aquele que instiga para a frente, que propõe novas soluções para novas necessidades, ou para velhas necessidades ainda por resolver.

Nossa tarefa é executar esse trabalho, como “filhos” de nossa Estrela-Pai; e só o poderemos fazer na proporção em que reconvertemos nossa personalidade de modo a dar-lhe novos usos e novos propósitos – e na medida em que o fizermos de forma total e absoluta.

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