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sábado, 7 de fevereiro de 2015

A ESTRUTURA DO SIGNO DE CAPRICÓRNIO VIII


Cruz. Fonte: Blog Timonha notícias.

Reincorporação

O problema com que se defronta todo indivíduo ao procurar vencer os estreitos limites, as prevenções e a exclusividade de uma atitude egocêntrica ou centrada no ego só pode ser compreendido em sua verdadeira natureza se a validade dos próprios termos autocentrado e egocêntrico for posta em dúvida, e se o ego (ou eu pessoal) for entendido como sendo, na prática e em concreta realidade, uma estrutura psíquica, mais do que um sujeito misterioso.

O uso familiar de adjetivos como egocêntrico e autocentrado, juntamente com a definição de Carl Jung do ego como o “centro do meu campo de consciência”, tende quase inevitavelmente a fazer o ego parecer um ponto ou um núcleo; mais ou menos como um rei todo-poderoso e autocrático é o centro de seu estado. Há um “campo de consciência” e esse campo tem um governo central. O elemento de estrutura, se for considerado, seria então referido ao campo de consciência (isto é, o modo típico em que a pessoa pensa, sente, responde às sensações e aos desafios da vida cotidiana). Essa estrutura psíquica seria o resultado da atividade e da vontade do ego, mais ou menos como a “lei do reino” constitui a expressão das decisões e da vontade do rei autocrático, que é a única autoridade suprema em “sua” jurisdição.

O conceito acima referido, porém, implica muito do que hoje pareceria uma psicologia antiquada e ingênua. Se o rei governa o reino e lhe estrutura as múltiplas atividades por decretos de toda ordem, o que é que governa o rei? O que o faz querer isto mais que aquilo? O que é que condiciona suas escolhas e decisões?

A resposta é que o rei faz as novas leis, mas as velhas leis fazem o rei. As tradições, os costumes ancestrais, os modelos religiosos e culturais básicos e as “Imagens primordiais” da nação de que ele se originou, como um filho condicionado por treinamento especial para tornar-se rei – todos esses fatores estruturam a consciência do rei, e desse modo lhe determinam basicamente, ainda que não exclusivamente, as decisões. Na maioria dos casos, um rei é o produto da tradição e do estilo de vida nacionais muito mais do que legislador que origina uma nova tradição ou estrutura de comportamento social. Quando um rei, como o faraó egípcio Akh-na-ton, procura alterar completamente a estrutura social-religiosa de seu reino, a tentativa tem mais probabilidades de malograr, ou de ter vida curta, do que de ser bem-sucedida; os velhos hábitos se impõem, demonstrando que têm mais fundamento e poder que o próprio rei.

Outro enfoque da questão levará às mesmas conclusões. A criança recém-nascida se compreende primeiramente como “eu” ou como “José”? A julgar pela experiência, a criança costuma falar primeiramente na terceira pessoa, quando se refere a si própria: “José fez isso, José quer aquilo”, antes de enunciar bem claro “Eu quero” e mais ainda “Eu sou”. Aliás, a sensação claramente consciente de “eu sou”, independentemente da qualificação determinativa e condicionante “José”, o nome da pessoa, constitui a meta de um processo de desenvolvimento espiritual muito longo e bastante difícil, e não o seu início.

O ego, como uma forma particular de ser, é um fator saturnino, pois Saturno é o senhor de todas as formas particulares de estrutura que se definem por suas diferenças de todas as outras formas; portanto, por um princípio de exclusão. “José da Silva” significa a soma total das diferenças de uma pessoa em relação a todos os outros seres humanos. E essa soma de diferenças é estabelecida – não só socialmente, mas também na consciência de José da Silva, por seu “nome”. Nas modernas sociedades, ela normalmente é estabelecida em dois níveis por dois nomes: um de família e outro pessoal. O primeiro tem por fim estabelecer diferenças coletivas (de raça, família, etc.); o outro, diferenças pessoais (individualidade).

Quando o homem diz a si mesmo ou a outros: “Eu sou o José da Silva”, o que ele quer dizer realmente não é “Eu”, e sim que ele é “José da Silva”. José da Silva é o ego, com suas diferenças individuais e de grupo estruturadas. O nome é o símbolo do ego. Jung sabia disso muito bem quando escreveu: “Por ego entendo um complexo de representações que... parece possuir um grau muito elevado de continuidade e identidade.” Ele falou de “complexo de ego”; e todo complexo é uma estrutura psíquica (em nosso sentido do termo estrutura). Mas o complexo de ego não é, como Jung aduziu, “o centro do meu campo de consciência” do mesmo modo como não é o fator estrutural na consciência. Por haver estrutura e ordem no campo de uma pessoa normalmente amadurecida, o sentido de identidade estrutural permanente aparece. Esse sentido de identidade estrutural permanente é o que o homem comum hoje em dia conhece como o sentido de “eu”.


Na verdade, o ego representa uma condição de constante envolvimento na tarefa de manter a estrutura do campo da consciência intacta contra a pressão de fatores internos e externos que procuram alterar essa estrutura, assim como o Estado procura eternamente implementar suas leis e regulamentos e proteger suas fronteiras e seu prestígio.

O ego é, de fato, o equivalente do Estado nos domínios da personalidade. O Estado pode ser controlado por um rei ou por qualquer outro tipo de símbolo oficial de autoridade (como a Constituição dos Estados Unidos); o ego pode desenvolver ou deixar de desenvolver um sentido de gerir ou governar o sentimento de “eu”. Em qualquer dos casos, o fator essencial permanece sendo o Estado como um todo; e esse Estado, sendo um fator estrutural, se encontra em ação em toda parte. O que se considera uma pessoa egocêntrica e muito voluntariosa é muito parecido com um Estado policialesco. O fator estrutural domina e tende a reprimir toda parte do campo da consciência, regulando toda função ou lançando todo pensamento ou sentimento não desejados para as trevas exteriores do inconsciente – para o exílio ou para o campo de concentração, conforme o caso. O Estado policialesco em geral tem um ditador oficial; mas esse ditador é um símbolo e um sintoma muito mais do que uma causa – salvo em casos especiais que logo estudaremos. Ele se transforma, seja como for – quando não o tenha sido desde o princípio – num escravo das estruturas que ele mesmo desenvolveu e, de fato, que precisou desenvolver.

A pessoa comum não pode ser comparada com um Estado totalitário e policialesco. Ela é, em geral, um todo muito mal-integrado, em que não há nenhum poder central efetivo forte. Nela, as necessidades ou impulsos psíquicos (comparáveis a “quotas especiais”, monopólios, cartéis, organizações eclesiásticas, sindicatos, etc.) lutam pela posição de autoridade central. O “eu” que na verdade é indicado na declaração “eu sou o José” é mais um símbolo do que uma realidade experimentada. Para o psicólogo, é o alvo obscuramente adivinhado de um processo de integração pessoal e talvez de ulterior transfiguração; ao passo que para o esoterista é a imagem refletida de uma realidade transcendente.

O eu no enunciado “eu sou José da Silva” não é a semente de Deus. Na maioria dos casos será, quando muito, a vaga sensação de uma estabilidade e permanência interior obscuramente pressentidas. É uma intuição incerta do que poderia ser a divindade no cerne das experiências mais elevadas e mais integradas no viver real de José da Silva. O objetivo principal de todos os ensinamentos verdadeiramente espirituais é fortalecer essa obscura intuição-sentimento em consequência de estabelecê-la como um conceito, como um corolário intelectual da ideia a ela relacionada da existência de Deus. “Deus é; eu sou” – estes são enunciados correlatos. Se não há nenhum “Deus” universal, o “eu” espiritual existiria em contraste absoluto e essencialmente sem significado com um universo estranho e incompreensível; e se não há nenhum “eu” como uma expressão potencialmente completa da divindade, a vida humana é uma tragédia insuportável que não leva a coisa alguma.

Em termos de simbolismo astrológico, a Estrela, que ainda é para o homem na Estrada Iluminada um fator transcendental, é um foco ou uma lente através da qual o ser universal de Deus radia como luz e como poder. Quando os passos anteriormente definidos sobre a Estrada Iluminada tenham sido dados eficazmente, a sensação amorfa de “eu” dentro da consciência de José da Silva transforma-se numa percepção cada vez mais clara de um “Ele” formado. A imagem de Deus é vista dentro da consciência, transportada, por assim dizer, pelo Raio da Estrela.

Para o espírito universal e que tudo penetra, tudo quanto acontece uma vez aconteceu uma vez por todas num mundo “intemporal”. No entanto, para todo homem que funcione conscientemente num mundo de ciclos e duração, o evento do nascimento divino – a incorporação do espírito na semelhança de Deus – é uma potencialidade em processo de se tornar realidade.

E quanto ao José da Silva? Ele se torna mãe do Deus vivente que está se agitando dentro de sua consciência. Um mistério está sendo celebrado dentro dele; um estranho e em geral desconcertante ritual de gestação. José da Silva agora hesita ao dizer “Eu sou o José da Silva”. Poderá ele ao menos dizer: “Eu sou”?

Para ser plenamente experimentado, o “eu” teve que ser separado completamente da qualificação “José da Silva”. Um processo negativo: um “não isto, não aquilo...” relativo ao condicionamento terreno, à hereditariedade, a pressões ambientais, a necessidades físicas – na verdade, a todo poder exercido pelo ego estrutural e sua constante concentração sobre o problema de manter essa estrutura da personalidade sob todas as circunstâncias possíveis ou sua prestação de atenção a esse problema. O indivíduo José da Silva teve que ficar anônimo antes de poder efetivamente sentir eu sou.

Até começar o novo estágio. Até que Saturno falasse na Estrada Iluminada. Até que a Estrela viesse a ser conhecida dentro da consciência: “Ele!” Nesse estágio, o místico proclama: “Deus vive em mim.” Nesse estágio, o grande prodígio é: Ele sou eu. O sujeito eu tornou-se a expressão de uma consciência mais vasta, de um organismo mais cósmico. O “Eu” passou a ser uma expressão d”Ele”. Nesse momento o “eu” tem seu nascimento como uma realidade orgânica, viva, e não meramente como sentimento-intuição de algum poder transcendente que tem de permanecer informe.

Eu O sou – e isso sou eu. O ser do indivíduo que era conhecido de si mesmo e dos outros como José da Silva está agora restabelecido, reincorporado em germe na compreensão “Eu O sou”. Algum dia, ainda remoto, a personalidade transfigurada será capaz de dizer, com Jesus: “Eu O sou”.

Tríptico Astrológico, D. R.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A ESTRUTURA DO SIGNO DE CAPRICÓRNIO VII


Capricórnio e Augusto. Fonte: CoinQuest.

Posição

Todo ciclo completo de experiência individual começa numa afirmação de identidade: “eu sou eu” (fase 1). Mediante o uso das energias da natureza  que, por direito inato biológico, social e espiritual, se enquadre dentro de seu campo de operação (fase 2), depois mediante os processos associativos de pensamento (fase 3), o “eu” que era no princípio apenas “eu” – um ritmo, uma qualidade de ser – transforma-se numa pessoa, num todo concreto e organizado (fase 4). Tendo experimentado a grande prova da “estabilidade” e escolhido um tipo de fundamento – em extensão de superfície, em enraizamento na terra, ou na compreensão do centro, vitorioso sobre a gravitação – a pessoa individual procura exprimir de modo característico as energias de sua personalidade (fase 5).

Há meios corretos e incorretos de usar o poder oriundo de um organismo concreto. Eles levam a uma proficiência cada vez maior de ação, ou à dor e à devastação (fase 6). Através da disciplina e do sofrimento, o homem aprende as lições de objetividade e respeito: deixando de aprendê-las, seu sentido de isolamento individual ou de frustração se converte em invalidez física e psicológica, em rebeldia ou rancor.

Nenhum indivíduo pode experimentar uma existência completa e frutífera isoladamente. Ser é entreter relacionamentos (fase 7). O relacionamento vivido com um espírito de mutualidade produz muitos frutos (fase 8). À medida que as responsabilidades que constantemente surgem na gestão dos frutos da parceria e do amor são partilhados por todos os participantes no relacionamento, brota o entendimento nas mentes iluminadas; atividades conjuntas fisicamente proveitosas adquirem sentido e valor (fase 9). Elas se integram dentro do campo de uma cultura, de uma religião, de uma sociedade de personalidades significativamente interdependentes e instruídas nos caminhos dos relacionamentos – de relacionamentos que “fazem sentido”, porque se referem sistemática e inteligentemente a um todo harmônico em formação (fase 10).

A sociedade humana está eternamente em formação. Mesmo quando uma certa sociedade ou cultura esteja exteriormente se desintegrando, como uma planta no outono, suas “sementes” estão amadurecendo e sendo disseminadas mesmo em meio à decadência. A vida em sociedade subentende participação num constante processo de integração ou desintegração. A participação do indivíduo, homem ou mulher, no processo social pode ser positiva ou negativa. Pode edificar ou manter, transformar ou destruir valores. Pode significar, para o indivíduo, alegria e sucesso no desempenho de suas responsabilidades nascidas dos relacionamentos – ou quase escravização a um ritmo alheio e insalubre de trabalho, do qual ele não aufere nenhum valor, salvo o mero fato de existir com relativo conforto e ao qual ele não acrescenta nenhuma visão criativa ou intensidade dinâmica.

A contribuição do indivíduo aos processos sociais – seja nas tarefas do lar ou na fábrica, nos campos ou no mar – estabelece seu lugar e função na sociedade. O caráter do relacionamento entre o “eu” individual e este fator de lugar-e-função é um dos quatro fatores constitutivos básicos de toda personalidade – um fator “cardeal”, que determina (juntamente com os outros três) o “enfoque total e quádruplo da vida” de qualquer um.

À medida que uma pessoa particular vive numa certa localidade e em termos das características específicas de sua raça, classe, família, religião, nível cultural-econômico e espiritual, seu “lugar” é por esse modo determinado – e, se ela aceitar as responsabilidades sociais associadas a esse lugar, sua “função” também. Em algumas sociedades o fator lugar-função é quase inteiramente predeterminado pelo nascimento e por herança. Nos países democráticos mais modernos todo indivíduo pode escolher – ao menos em teoria – seu lugar e função dentro da economia da sociedade.

Qualquer pessoa que funcione ativamente, de acordo com o lugar por ela ocupado na sociedade, tem uma “posição”. Nessa palavra posição, vemos combinados muitos elementos sociais e psicológicos que permitem caracterizar, muito adequadamente, a décima dentre as provas básicas que a existência individual sobre a Terra depara a toda pessoa ativa em qualquer tipo de agrupamento social. A posição implica o fator de lugar; porém, mais que isso, ela se refere ao fato de que todo homem em qualquer “posição” deve assumir plenamente as responsabilidades de sua posição e pode exercer, ainda que em pequeno grau, algum tipo de influência e autoridade. Posição, do ponto de vista social, é lugar com referência a um todo operativo e organizado. Ela inclui atividade funcional e, sempre que a função seja preenchida com eficácia, prestígio.

Qualquer sociedade em que a “posição” confira prestígio a um indivíduo mesmo que ele não satisfaça, ativa e eficazmente, os requisitos de suas responsabilidades, é em certo sentido uma sociedade insalubre e espiritualmente perversa. A posição de um homem na sociedade deve sempre ser a fruição de sua identidade individual; deve ser a prova e consagração de sua realização como indivíduo. A “prova das obras” é exigida pelo espírito a qualquer pessoa que busque experimentar a plenitude do viver individual. Deve, igualmente, ser exigida pela sociedade que, só depois de dada a prova, tem o direito de outorgar prestígio e autoridade. Essa outorga é o que significa “com-sagração”: o Todo dotando um participante individual de sua vida com autoridade e delegação de poder; confiando-lhe um “ministério”. A união da pessoa certa com o cargo ou ministério significativo é a consumação de toda a existência humana, seja qual for o nível em que o ser social ou espiritual dessa união se efetive.

A prova da posição é, pois, a que vem coroar a experiência de vida de um indivíduo. A sua atitude em relação a uma posição é o fator pelo qual ele será julgado social e espiritualmente. Por ela ficará ele de pé ou cairá como pessoa individual. E “posição”, aqui, significa qualquer tipo participação eficaz na vida da sociedade e da humanidade em termos dos requisitos “orgânicos” da coletividade de que o indivíduo conscientemente faz parte e à qual ele sente, com a totalidade de seu ser, que “pertence”.


Nenhuma posição é menos nobre que qualquer outra. O varredor de ruas que mantém limpa a cidade, a dona-de-casa cumprindo suas tarefas do lar, o trabalhador das minas, o escriturário ou o político, o artista reformador ou o religioso que levam outros a um novo caminho de transformação social e ética e de criatividade espiritual – todas essas pessoas detêm “ministérios” e realizam tarefas funcionais em sua comunidade. A maneira pela qual desempenham essas tarefas determina não só sua situação social como também sua situação espiritual como indivíduos.

A qualidade desse desempenho é, por sua vez, determinada pelo caráter do enfoque progressivo que os trabalhadores tenham dado a esta culminação – a este “zênite” – de vida pessoal; pela maneira como eles gradativamente se prepararam, e foram preparados mediante sua educação, para esta prova crucial de “desempenho”. Nenhuma pessoa, no exercício efetivo de uma função, pode dar mais do que investiu no processo de preparação para ela.

Ela se vê compelida, pela própria pressão de suas atitudes precedentes, a enfrentar as provas de poder e autoridade de acordo com a circunstância de esse poder e essa autoridade terem vindo a ela em resultado de relacionamentos tornados profícuos em matéria de inteligência e entendimento, ou se buscou incansavelmente adquiri-los açambarcando a energia nascida do relacionamento a fim de alimentar sua ambição.

Entendimento e ambição são as duas vias para adquirir “posição”; e cada uma delas baseia-se num tipo de enfoque do relacionamento humano e do uso dos frutos desse relacionamento – o enfoque positivo ou negativo. Cada qual por sua vez, todo homem enfrenta os problemas de relacionamento humano, de acordo com o modo pelo qual tenha encarado seu próprio eu e tenha edificado sua personalidade. A totalidade da vida pessoal é consumada no uso que se faz do “poder social” – poder não gerado pelo indivíduo como organismo isolado, mas sim pela interdependência e cooperação (consciente ou inconsciente) de um grupo de indivíduos. Será este poder de posição ou encargo considerado como uma custódia ou como um fruto de pilhagem? Cabe a todo indivíduo escolher. Na maioria dos casos, a escolha está condicionada pela cultura e tradição específicas da pessoa, por um dado tipo de educação e pelas oportunidades que lhe foram oferecidas pela sociedade.

A tragédia de nossa democracia individualista está em que toda a tendência da sociedade é no sentido de, sutil ou grosseiramente, fazer o indivíduo considerar todo o poder ou autoridade que lhe vem para às mãos em decorrência de sua posição social, como algo estritamente, e sem reservas morais, “seu”. Este poder ou autoridade é apresentado como se fosse exclusivamente para ele mesmo usar como bem lhe parecer e sem levar em conta o bem-estar da sociedade em geral. Entretanto, o poder ou autoridade desse tipo é de fato gerado pelo indivíduo na medida em que ele participe da vida de toda a comunidade, e não em sua condição de pessoa isolada. Não constitui um fator “privado” mas “público”.

É certo que todos os membros de uma comunidade dividem entre si as vantagens e os confortos assegurados por sua vida em comum. A sociedade concede a cada indivíduo que a compõe uma quota de participação nos benefícios de sua civilização e cultura; toma também, sob a forma de impostos, uma parte de todos os lucros auferidos pelo indivíduo como pessoa social. No entanto, a atitude individualista básica da maioria dos seres humanos imprime tão profundamente a qualidade da cupidez em todo ganho que um indivíduo aufere de seu trabalho, como membro da sociedade, que a herança sócio-cultural – a colaboração oculta de todos para o progresso social de cada um – é vista como coisa já de si garantida ou então é ignorada. O individualista grosseiro viola a natureza e a sociedade, tiraniza o fraco e o congenitamente oprimido a fim de apresentar sua própria ambição; usa o que pode tirar da vida coletiva de seu povo para engordar seu egoísmo, ou malbarata-o para lisonjear o seu capricho entediado.

identidade e relacionemtno devem integrar-se em trabalhos consagrados; não o podem ser em nada mais. Sempre que um fator usa o outro para sua vantagem exclusiva, os valores humanos se pervertem; o “Homem” sofre um perpétuo aborto. Toda vez que um indivíduo usurpa o poder inerente a seu cargo ou função – ainda que seja o de uma enfermeira ou de um chefe de seção numa fábrica – a fim de expandir seu ego e sua riqueza a expensas da atividade social que é de sua responsabilidade executar, o Homem sofre. Toda vez que uma sociedade – através de seu núcleo central de poder e autoridade, que é o Governo – torna os indivíduos subservientes ou escravos de sua ambição por expansão coletiva e de sua cobiça de poder, o Homem é brutalizado.


Um individualismo absoluto é, em última análise, tão nocivo aos valores espirituais quanto o coletivismo absoluto. O rude individualismo dos tempos de expansão de fronteiras, por mais que pareça historicamente útil, é tão contrário à satisfação do Homem quanto o é um coletivismo totalitário todo imbuído da vitalidade de metas criativas. Não pode haver, em última análise, nenhum valor verdadeiramente espiritual exceto como fruto da harmonização das duas polaridades.

Neste fator de “posição” o indivíduo e a sociedade se encontram. O homem e seu cargo se tornam uma coisa só – e são ambos sagrados. Porque, considear o homem como seus próprios o poder e a autoridade decorrentes de seu cargo e utilizá-los ao sabor de suas emoções ou segundo os caprichos de seu ego – este é o maior de todos os crimes. Mas tão grande quanto este é o crime de uma sociedade que escraviza o homem a seu cargo, para que a sociedade e os mecanismos controladores do estado se agigantem e se tornem mais poderosos.

Nosso mundo moderno está dilacerado e brutalizado pela ocorrência maciça de ambos esses tipos de crime. As guerras mundiais são os sintomas, não as causas, da deterioração do Homem. Indivíduos definham e morrem sob tortura; nações inteiras se esboroam, ao passo que as burocracias se tornam cada vez mais prepotentes. Por quê? Não compreenderam que a identidade individual e o relacionamento em grupo constituem os dois pilares da civilização, os dois membros de sustentação do Homem. Deixaram de respeitar o caráter sagrado tanto do cargo como da pessoa individual que o desempenha.

Os indivíduos se tornam mecanizados, autômatos; as comunidades se convertem em cemitérios do espírito criador. A civilização se torna a “Sombra” do Homem, um pesadelo pleno das atividades catabólicas dos homens que são, na mente, destruidores e, em suas vidas emocionais, neuróticos varridos. Eis aí o retrato de nossa moderna civilização ocidental.

Entretanto, além e acima da Sombra, figura a Personagem Iluminada. Ser um sol é emitir luz sobre um grupo de corpos obscuros que gravitam, anelantes de luz, em torno do núcleo radioso de nossa dádiva. A estrela do verdadeiro zênite converte-se na “posição” do sol do meio-dia apenas no equador. À proporção que raia o poder “solar” de sua identidade através de sua atuação social (seu “cargo”), o indivíduo autodedicado cumpre seu papel na sociedade apenas na medida em que se equilibre em esplendor equatorial, à proporção que Norte e Sul sejam igualmente ativos em sua personalidade realizada e “global”.

Essa é a condiçãoda plenitude humana; e para ela a humanidade, tendo-se visto às voltas com a morte e as devastações da guerra, pode estar vagarosamente – ah! quão vagarosamente – dirigindo o seu curso, por mais longínquo que esteja seu objetivo final. Mas mesmo a plenitude pode lançar sombras, as mais densas de todas! Plenitude material significa máximo de peso e opacidade, bem como total ausência de espírito. Pode ser tida por sucesso, e todavia ser a morte de tudo quanto é real e criativo no homem. Pois muitos há, infelizmente, a quem o proprio sucesso faz malograr, como nenhuma outra coisa! Há cegueira em todos os sóis a pino; facinoroso calor em todos os equadores.

A plenitude espiritual reside apenas onde as estrelas se constelam na inteireza translúcida do céu, símbolo da Deidade. Aquele que pode experimentar o sol da meia-noite no pino do dia; aquele cuja estrela zenital à meia-noite pode ser como um sol iluminando todos os homens – esse tal é, na verdade, a encarnação de um deus. Ele é o espírito universal incorporado num ministério. Nessa incorporação – e em nada mais que nela – o indivíduo alcança a plenitude do espírito, pelo espírito, e para todos os homens.

Tríptico Astrológico, D. R.

A ESTRUTURA DO SIGNO DE CAPRICÓRNIO VI


O planeta Saturno. Fonte: Calvin Observatory.

Integridade Pessoal

No solstício de inverno, a tendência para a ação coletiva e para a socialização de sentimentos e de pensamentos atinge o seu ápice. A civilização – isto é, a organização de generalidades e de valores universais – triunfa. Ela é exaltada no cidadão comum dos vastos organismos sociais – cidades, estados e confederações – em que as mentes e as raças se fundem e as culturas separadas se perdem.

A civilização promove a padronização e a satisfação dos desejos, impulsos e interesses comuns à maioria dos homens. A universalidade de pensamento e de comportamento que possa haver é obtida à custa de uma indiferença voltada para as distinções e contrastes que estimulam o caráter e o uso de poderes criativos, ou mesmo à custa de uma eficiente supressão dessas distinções e desses contrastes. A natureza transferível de todos os valores civilizados, bem que ajustando-os teoricamente a todas as pessoas e a todas as épocas, impregna os produtos da civilização com o sentimentalismo desenxabido das canções populares e dos filmes cinematográficos.

Com o solstício de inverno, o signo zodiacal de Capricórnio tem início. Ele é tradicionalmente um símbolo de ação política: mas também testemunha o nascimento de Cristo. Em termos do simbolismo zodiacal, a ordem “psicomental” tem sua origem no solstício de verão e no signo de Câncer, governado pela Lua; a ordem “espiritual” segue-se durante o período do Natal desde o signo de Capricórnio. Ambos os tipos de atividade operam durante todo o ano, mas com graus de intensidade variáveis e compensatórios. Da mesma forma, em cada um dos doze tipos da “natureza humana”, definidos pelas características básicas dos doze signos do zodíaco, vemos que os traços suscitados pelo espírito e psicoativos interatuam, e de maneiras contrastantes buscam expressão mais exterior no comportamento orgânico ou social.

O homem, em seu ser psicomental, está incessantemente lutando rumo a formas de organização mais inclusivas; entretanto, à medida que o faz, ele sempre abarca muito mais do que consegue efetivamente assimilar e integrar, e torna-se vítima das energias despertadas de suas profundezas ainda indiferenciadas ou por longo tempo reprimidas. A organização torna-se grande, sobrecarregada de generalizações intelectuais e de regulações padronizadas. Ela absorve massas de elementos que só superficialmente correspondem ao ritmo integrador da mente organizadora. Para contestá-los, mais regras, mais generalidades, mais fórmulas são produzidas, que não se aplicam a nada em particular porque precisam aplicar-se a tudo em geral. A elite governante ultraconsciente perde o contato real com as massas sem raízes, sublevadas e reivindicatórias, mas fundamentalmente inconscientes; ao desassossego destas últimas, aquela não pode dar nenhuma solução vital e realmente integradora – só paliativos.

Esse é então o momento do maior desafio ao espírito. Um novo logos, Uma nova “palavra de virtude”, um novo sentido criativo, uma nova qualidade de humanidade deve ser projetada no caos fervilhante daquelas partes da natureza humana e da sociedade que não podem se tornar efetivamente integradas pela “forma de vida” ultra-expandida e ultrageneralizada que coletivamente constitui o estado do império universal. O espírito deve atuar como um novo impulso e impregnar as massas com um organismo desintegrador. Ela precisa estabelecer um novo ritmo, uma nova era; e, para tanto, precisa incorporar-se naquelas poucas porções da natureza humana – naqueles poucos indivíduos que vivem na sociedade ultracivilizada – que possam responder a essa descida de poder e visão fecundantes. Cristo e seus seguidores nascem no Império Romano dos Césares.


Hoje, o mundo do homem representa, uma vez mais, um caos de culturas e de entidades políticas e religiosas em processo de desintegração. A mentalidade anglo-americana – com suas raízes europeias e particularmente francesas – tem produzido um estilo de vida, uma espécie típica de estrutura política (uma Constituição universalmente copiada, etc.), um modelo democrático de direitos e de cultura. No entanto, essa mentalidade e seus produtos não têm, em si mesmos, o poder de integrar o atual caos que prevalece em todo o mundo. A integração, que precisa se tornar global nos séculos ainda por vir, só pode se originar por um ato do criativo espírito divino, por um novo logos que enfoque uma nova potencialidade do Homem, ativando novas faculdades.

O fato de ser isto sempre e eternamente assim é a grande lição que a humanidade, e particularmente o tipo humano individual de Capricórnio, têm que aprender. Capricórnio simboliza o estágio de maturidade das formas sociais de vida coletiva, o produto último da mente humana que alcançou pleno desenvolvimento – e o imperialismo, mitigado ou não, inevitavelmente associado com a maturidade de um indivíduo – através de expansão, generalização, padronização, legislação e racionalização coletivas (todas essas, características de Sagitário). Em Capricórnio, a tendência que se iniciou com Câncer, e foi pressentida nos signos vernais do zodíaco, alcança sua mais plena expressão.

O Império Romano é o símbolo tradicional do cumprimento dessa tendência. Todo tipo de homem capricorniano abriga em si um César Augusto – se não um Nero! – em potencial. Dentro dele esconde-se a máquina política romana de procônsules e o poder das legiões romanas buscando sujeitar um mundo bárbaro e em desintegração – o passado e o porvir.

A todo capricorniano e a seus conflitos pode surgir, na noite de sua alma, um Cristo – a luz que, ela só, integra o caos do mundo. Esse dom do espírito, esse Cristo-logos, representa a resposta essencial à necessidade de uma humanidade cega pela adoração da maior e mais eficiente máquina política, estado ou estrutura federal que a civilização pode produzir em qualquer tempo. Entretanto, por muito cego que esteja, o homem continua ansiando em suas profundezas por aquilo que nenhum modelo de organização social e nenhuma sociedade planejada pode oferecer: a compreensão clara por parte de todo indivíduo, e dentro de cada indivíduo, de sua identidade essencial.

Essa fé é uma ilusão. As instituições por si sós não levarão à Europa, à Asia – e, como recentemente temos tido que entender, a nós próprios americanos –, a paz e a felicidade criativa que os homens necessitam desesperadamente, porque elas não podem fazer isto. O que é preciso é uma nova difusão do espírito, um novo despertar do poder espiritual da integridade pessoal dentro dos corações de um número incontável de indivíduos, uma recusa contagiante a confiar em fórmulas ou em instituições, ou em quaisquer sistemas de pensamento e em quaisquer modelos tradicionais. É certo que há sistemas de vida e processos sociais que permitirão, mais que outros, a expressão mais exterior e coletiva do espírito da integridade pessoal. Todos os homens devem estudar e assimilar esses sistemas. Nunca devem tê-los como coisa líquida e certa.

O homem é um fabricante de formas. Mas essas formas são prisões, sem o poder animador do espírito. Elas podem compelir; mas não integrarão. Elas podem destruir o passado decadente – como uma bomba atômica, Hiroshima, cidade de luxúria e decadência política. Elas não podem insuflar a vida de amanhã em culturas marcadas pelo anacronismo. Nossa fé não deve ser colocada em processos ou em instituições; mas sim no contágio espiritual de nosso exemplo. As nações farão da democracia um grande bem, na proporção em que criarem suas próprias formas de viver e se recusarem a aceitar as nossas; e elas procurarão avidamente emular nossa democracia, na medida em que nós próprios vivamos a democracia em termos de integridade e responsabilidade pessoal.

Tríptico Astrológico, D. R.

A ESTRUTURA DO SIGNO DE CAPRICÓRNIO V


Anéis de Saturno. Fonte: Daily Mail Online.

O planeta Saturno

Ao serem avistados pela primeira vez através de um telescópio de fundo de quintal, Saturno e seus anéis, mais do que qualquer outro ícone ultramundano, podem facilmente fazer de um observador desavisado um astrônomo para sempre.

O espetacular sistema saturnal de anéis abrange um disco que mede 290 mil quilômetros de uma extremidade (ou ansa – asa, alça) a outra, equivalente à distância da Terra à Lua. No entanto, a espessura média de um anel não é superior à altura de um edifício de trinta andares. Os astrônomos que tentavam descrever esse intraduzível achatamento recorriam a metáforas como panquecas e discos fonográficos, até que se decidiu usar a analogia de uma folha de cartolina do tamanho de um estádio de futebol. (Desde então, medições mais precisas levaram à substituição da cartolina por papel de seda).

Acredita-se que todos os elementos constitutivos dos anéis, desde minúsculos grânulos de pó até matacões do tamanho de uma casa, sejam no mínimo recobertos de gelo – isto é, se não forem compostos inteiramente de água congelada. Saturno em si, por outro lado, é um gigante gasoso à maneira de Júpiter, constituído de hidrogênio e hélio, só que menor, mais mortiço e duas vezes mais afastado do Sol. Sem o seu entorno de cristais de gelo e flocos e bolas de neve de todos os tamanhos, Saturno dificilmente deslumbraria observadores a mais de 1 bilhão de quilômetros de distância.

Em maio de 1919, os anéis estavam com a face inclinada em direção à Terra, o que muito beneficiava Saturno artisticamente. Contudo, de quinze em quinze anos, mais ou menos, ou duas vezes durante a translação de 29,5 anos do astro em torno do Sol, eles viram de quina para os admiradores terrestres, encobrindo quase toda a sua cativante luminosidade. Esses desaparecimentos periódicos desconcertavam os primeiros observadores dos anéis, pois, mesmo ao telescópio, tudo o que se vê deles nessas ocasiões é uma fina sombra em torno do globo amarelado do planeta.

Galileu, o primeiro a visualizar protuberâncias laterais em Saturno em julho de 1610, interpretou erroneamente as saliências como uma dupla de “companheiros” próximos, que não se moviam como os satélites de Júpiter, mas abraçavam os flancos do planeta, dando-lhe uma aparência “tricorpórea”. Ele continuou monitorando o astro nos dois anos seguintes e, no final de 1612, confessou-se perplexo ao ver Saturno subitamente solitário e circular, abandonado por seus antigos parceiros. “O que se pode dizer de tão estranha metamorfose?”, escreveu a um colega filósofo. Poderia o planeta Saturno, à maneira de seu homônimo mitológico, ter “devorado os próprios filhos”?

Systema Saturnium, de Christiaan Huygens. Fonte: Surveyor in Berlin.

Galileu previu que os companheiros retornariam e, quando isso de fato aconteceu, eles tinham se modificado bastante. Em 1616, afirmou que pareciam um par de alças e, mais tarde, comparou-os com orelhas, mas nunca chegou a entender a natureza fantástica da verdadeira identidade dos anéis. Somente em 1656 o astrônomo holandês Christiaan Huygens atribuiu o formato mutante de Saturno à existência de “um anel largo e achatado, sem ponto de contato, inclinado em relação à eclíptica”. Em 1659, Huygens publicou uma explicação completa em seu livro Systema Saturnium.

Huygens sempre se referiu ao “anel de Saturno” como uma única entidade sólida, o que foi aceito até 1675, quando Jean-Dominique Cassini, diretor do Observatório de Paris, detectou uma linha divisória escura que demarcava o anel em duas faixas concêntricas, que denominou “A” (a externa) e “B” (a interna, mais brilhante). Dois séculos se passaram antes que fosse acrescentado um terceiro segmento – o esmaecido anel “C”, interno, descoberto em 1850 –, embora ninguém pudesse dizer como ou do que os anéis eram efeitos. Havia discussões aguerridas sobre a estrutura dos anéis e as opiniões variavam desde lâminas sólidas e chusmas de pequenos satélites até rios de líquido orbitante e exalações de vapores planetários.

“Encontrei muitas brechas no anel sólido”, jactou-se o jovem escocês James Clerk Maxwell em 1857 em meio a cálculos matemáticos, “e agora estou mergulado no anel fluido, em meio a um embate verdadeiramente assombroso de símbolos”. Convencido de que a gravidade de Saturno despedaçaria uma construção sólida de tal dimensão, Maxwell inferiu que os anéis deveriam ser uma profusão de partículas isoladas tão numerosas que criavam ilusão de solidez à distância. Cada partícula teria forçosamente de seguir uma órbita própria em conformidade com as leis de Kepler, ou seja, as partículas mais distantes do planeta se moveriam mais devagar e as mais próximas mais depressa, do mesmo modo como o próprio Saturno avança laboriosamente em torno do Sol se comparado com o passo acelerado de Mercúrio. (Estarrece a imaginação pensar nas melodias que Kepler teria extraído dessa enxurrada de astros!)

No interior de cada um desses anéis apinhados de partículas, cada uma delas está constantemente empurrando e sendo empurradas por suas vizinhas, e cada solavanco lança-as em órbitas mais largas ou estreitas dependendo da troca de energia e momento. Essas microcolisões também lançam as partículas para cima ou para baixo do plano achatado dos anéis, mas os corpúsculos extraviados são logo arrebanhados de volta.

Desde 1966, quatro outros anéis – designados de D a G – foram acrescentados aos clássicos A, B e C. (Enquanto grupo, suas posições em relação a Saturno – D, C, B, A, F, G, E, de dentro para fora – escarnecem da ordem alfabética de suas descobertas.) Cada região designada por uma letra distingue-se das demais por pequenas variações de cor e brilho, pela densidade das partículas ou por um formato peculiar. Quando vistos da perspectiva privilegiada de uma espaçonave visitante, cada segmento se decompõe numa miríade de delgados microanéis, separados por um número equivalente de microlacunas, sob a vigilância de microssatélites incrustados.

Ciclo do planeta Saturno. Fonte: Hub pages.

O sistema de anéis provavelmente se formou pela desintegração de uma lua congelada, ou talvez de um planetóide capturado, com cerca de cem quilômetros de diâmetro. Esse desafortunado astro, destruído há algumas centenas de milhões de anos, talvez esteja tentando se reconstituir na órbita de Saturno, pois, à medida que suas partículas se atraem e se apegam gravitacionalmente umas às outras, vão formando aglomerados que, por sua vez, atraem outras partículas para continuarem crescendo. No entanto, isso só se dá até certo ponto. Qualquer corpo anelar acrecionário que exceda determinados limites de tamanho volta a ser despedaçado pelas forças de maré de Saturno. Assim, os fragmentos dispersos parecem destinados a jamais se aglutinarem num único satélite outra vez.

Em Saturno, os anéis são mais contíguos e ocupam uma região de fragmentação perpétua conhecida como Zona de Roche (em homenagem a Edouard Roche, astrônomo francês do século XIX que calculou as distâncias seguras para satélites planetários). Todas as luas maiores de Saturno estão bem além do limite de Roche e fora do perímetro dos anéis. Entretanto, a família estendida de Saturno (no mínimo 34 luas, segundo a última contagem) inclui vários membros menores dentro e em meio aos anéis, que contribuem para esculpir as suas complexidades. O anel F, por exemplo, deve seu contorno particularmente retorcido e estreito à ação de duas pequenas luas adjacentes, uma das quais se move rapidamente pelo lado interno enquanto a outra percorre a face externa. Juntas, atuam como satélites “pastores”, arrebanhando em ondulações, nós, tranças e carapinhas as multidões de partículas existentes entre ambas.

Os anéis também reverberam ao ritmo do campo magnético de Saturno, que é gerado no interior de hidrogênio metálico líquido do planeta. Em compasso com a rotação de Saturno – em alta velocidade, portanto –, o campo magnético perfaz um giro completo a cada 10,2 horas. Como resultado, as partículas do anel B que se movem na mesma velocidade, ou duas vezes mais devagar ou mais depressa, são arrancadas de suas órbitas.

Saturno reinou como o único astro anelado por trezentos anos, até que descobertas nas décadas de 1970 e 1980 mostraram que todos os planetas gigantes têm algum tipo de anel. Júpiter possui anéis tênues, transparentes, diáfanos, formados de flocos refugados de diversas pequenas luas. Urano possui nove anéis escuros e estreitos, de bordas bem nítidas, contidos por satélites pastores. E os cinco débeis e poeirentos anéis de Netuno têm espessuras tão irregulares que algumas seções se afilam quase a zero, dando a impressão de arcos anelares parciais. Porém, nenhum desses sistemas recém-identificados pode realmente competir com os anéis barrocos, quase rococó, de Saturno. Cada um deles retrata um único matiz da dinâmica anelar, algum fenômeno presente também em Saturno, onde acabam sendo acabrunhados pela quantidade de variações e ornamentos lá existentes.

Todos os anéis mudam constantemente devido a sucessivas ondas de construção e desconstrução. São os mesmos anéis de um ano para outro – e, todavia, não o são, pois, à medida que se puem e desgastam pelo atrito de colisões internas, novas infusões de poeira lunar e meteoritos cadentes reabastecem suas provisões de partículas.

Cada sistema de anéis, produto da gravidade e da harmonia, sugere um modelo de concepção cósmica. Os anéis rememoram o nascimento de nossa família de planetas, que surgiu 5 bilhões de anos atrás de um disco achatado girando em torno do Sol neonato. Hoje também encontramos ecos de anéis nos chamados discos protoplanetários que foram divisados em torno de algumas jovens estrelas distantes, onde matérias-primas de gás e pó estão se unindo para sintetizar novos mundos. Os anéis de Saturno constituem, pois, um elo entre o nosso Sistema Solar e outros sistemas extra-solares em formação – e entre o Sistema Solar do presente e o seu passado remoto.

Os Planetas, D. S.

A ESTRUTURA DO SIGNO DE CAPRICÓRNIO IV


Ilustração de Saturno. Fonte: Pinterest, de Cuz-William Castillo.

O simbolismo da cor Preto

Simbolicamente, é com mais frequência compreendido sob seu aspecto frio, negativo. Cor oposta a todas as cores, é associada às trevas primordiais, ao indiferenciamento original.

Conforme os povos localizem seu inferno e o mundo subterrâneo no Norte ou no Sul, uma ou outra dessas direções é considerada preta. Instalado, portanto, embaixo do mundo, o preto exprime a passividade absoluta, o estado de morte concluído e invariante, entre estas duas noites brancas, em que se efetuam, sobre seus flancos, as passagens da noite ao dia e do dia à noite.

O preto é cor de luto; não como o branco, mas de uma maneira mais opressiva. O luto branco tem alguma coisa de messiânico. Indica uma ausência destinada a ser preenchida, uma falta provisória. O luto preto, por sua vez, é, poder-se-ia dizer, o luto sem esperança. Como um nada sem possibilidades, como um nada morto depois da morte do Sol, como um silêncio eterno, sem futuro, sem nem mesmo a esperança de um futuro, ressoa interiormente o preto, escreve Kandinsky. O luto negro é a perda definitiva, a queda sem retorno no Nada: o Adão e a Eva do Zoroastrismo, enganados por Arimã, vestem-se de preto, quando são expulsos do Paraíso.

Cor da condenação, o preto torna-se também a cor da renúncia à vaidade deste mundo, daí os mantos pretos que constituem uma proclamação de fé no cristianismo e o Islã: o manto preto dos mawlawyyas – os dervixes rodopiantes – representa a pedra sepulcral. Quando o iniciado o tira para começar sua dança giratória, aparece vestido com uma roupa branca que simboliza seu renascimento no divino, isto é, na Realidade Verdadeira: entrementes as trombetas do julgamento soaram.

No Egito, segundo Horapollon, uma pomba preta era o hieróglifo da mulher que permanece viúva até sua morte. Esta pomba preta pode ser considerada como um eros frustrado, a vida negada. Conhece-se a fatalidade manifestada pelo navio de velas negras, desde a epopeia grega até a de Tristão.

Mas o mundo ctônico, o subterrâneo da realidade aparente, é também o ventre da terra, onde se efetua a regeneração do mundo diurno. Se é preto como as águas profundas, é também porque contém o capital de vida latente, porque é o grande reservatório de todas as coisas: Homero vê o oceano como preto. As Grandes Deusas da Fertilidade, essas velhas deusas-mães, são com frequência pretas em virtude de sua origem ctônica: as Virgens negras acompanham assim as Ísis, as Áton, as Deméter e as Cibele, as Afrodite negras.

As cores de A Morte, Arcano 13 do Tarô, são significativas. Essa morte iniciatória, prelúdio de um verdadeiro nascimento, ceifa a paisagem da realidade aparente – paisagem das ilusões perecíveis – com uma foice vermelha, enquanto que a própria paisagem está pintada de preto. O instrumento da morte representa a força vital, e sua vítima, o nada; ceifando a vida ilusória, o Arcano 13 prepara o acesso à vida real. O simbolismo do número confirma aqui o da cor; 13, que sucede a 12, número do ciclo terminado, introduz uma nova partida, fomenta uma renovação.

Na linguagem heráldica, a cor preta é chamada sable (palavra francesa que significa “areia”). O sable significa prudência, sabedoria e constância na tristeza e nas adversidades. Esse preto, segundo o pensamento de Mevlana, é a cor absoluta, a conclusão de todas as outras cores, superadas como tantos degraus, para se atingir o estado supremo do êxtase, onde a Divindade aparece ao místico e o ofusca.


Mas o preto é também a terra fértil, receptáculo do “se o grão não morrer” do Evangelho, esta terra que contém os túmulos, tornando-se assim a morada dos mortos e preparando o seu renascimento. É por isso que as cerimônias do culto de Plutão, Deus dos Infernos, compreendiam sacrifício de animais pretos, ornados com tirinhas da mesma cor. Esses sacrifícios só podiam ser feitos nas trevas, e a cabeça da vítima devia estar virada para a terra.

O preto evoca também as profundezas abissais, os precipícios oceânicos (num mar sem fundo, numa noite sem lua), o que levava os antigos a sacrificar touros negros a Netuno.

Enquanto evocador do nada e do caos, isto é, da confusão e da desordem, o preto é a obscuridade das origens; precede a criação em todas as religiões. Para a Bíblia, antes que a luz existisse, a terra era informe e vazia, as trevas recobriam a face do Abismo. Para a mitologia greco-latina, o estado primordial do mundo era o Caos. O Caos engendrou a Noite que se casou com seu irmão Érebo: tiveram um filho, o Éter. Assim, através da Noite e do Caos, começa a penetrar a luz e a criação: o Éter. Mas, entrementes, a Noite havia engendrado, além do Sono e da Morte, todas as misérias do mundo, como a pobreza, a doença, a velhice, etc.

O preto, como cor indicativa da melancolia, do pessimismo, da aflição ou da infelicidade, reaparece a todo minuto na linguagem cotidiana (pensamentos sombrios, ideias negras, humor negro). Os estudantes ingleses chamam de Black Monday a segunda-feira em que recomeçam as aulas, e os romanos marcavam com uma pedra preta os dias nefastos.

Enquanto imagem da morte, da terra, da sepultura, da travessia noturna dos místicos, o Preto está também ligado à promessa de uma vida renovada, assim como a noite contém a promessa de aurora, e o inverno a da primavera. Sabemos, além disso, que, na maioria dos Mistérios antigos, o participante devia passar por certas provas à noite ou submeter-se aos ritos num subterrâneo obscuro. Assim também, hoje em dia, os religiosos e religiosas morrem para o mundo num claustro.

Do ponto de vista da análise psicológica, nos sonhos diurnos ou noturnos, bem como nas percepções sensíveis no estado de vigília, o preto é considerado como a ausência de toda cor, de toda luz. O preto absorve a luz e não a restitui. Evoca, antes de tudo, o caos, o nada, o céu noturno, as trevas terrestres da noite, o mal, a angústia, o inconsciente e a Morte.

Nos sonhos, a aparição de animais pretos, de negros ou de outras personagens escuras mostra que entramos em contato com nosso próprio Universo instintivo primitivo que é preciso esclarecer, domesticar e cujas forças devemos canalizar para objetivos mais elevados.

Dicionário de Símbolos, J. C. & A. G.

A ESTRUTURA DO SIGNO DE CAPRICÓRNIO III


Dias de Saturno. Fonte: Evus.

O mito de Cronos

Filho de Urano (o Céu) e de Gaia (a Terra). Pertencia à raça dos titãs, a primeira geração divina, anterior a Zeus e aos demais deuses olímpicos.

Cronos foi o único titã a ajudar sua mãe a vingar-se do pai, cortando-lhe os testículos; em seguida destronou-o e tornou a confinar no Tártaro seus irmãos germanos, os gigantes Hecatônqueires, aprisionados anteriormente por Urano e libertados por Cronos a pedido de Gaia.

Já na condição de rei dos deuses e senhor do mundo, Cronos casou-se com Rea, sua irmã. Em sua onisciência ele sabia que seria destronado por um de seus filhos, e numa tentativa de evitar que isso acontecesse devorou seguidamente, logo após o nascimento, Deméter, Hera, Hestia, Plutão (Hades) e Poseidon. Indignada com a fúria infanticida de Cronos, Rea, sentindo aproximar-se a hora de dar Zeus à luz, foi pari-lo secretamente em Dicte, na ilha de Creta. Para enganar Cronos, Rea envolveu uma pedra em fraldas, como se tratasse de um recém-nascido, e a entregou ao marido, que a devorou.

Chegando à idade adulta Zeus, auxiliado por Métis, filha de Oceano, ou pela própria Gaia, preparou e deu a Cronos uma beberagem que o obrigou a vomitar todos os filhos que engolira. Zeus e seus irmãos recém-salvos entraram em guerra contra Cronos, aliados aos titãs, seus irmãos.

No décimo ano de guerra um oráculo de Gaia revelou a Zeus que a vitória seria sua se contasse com a ajuda dos gigantes Hecatônqueires, naquela ocasião confinados no Tártaro por Cronos. Graças ao seu auxílio Zeus saiu vitorioso na guerra e aprisionou Cronos e os titãs no mesmo lugar onde estiveram os Hecatônqueires, que passaram a ser os guardiães dos vencidos.

Além dos filhos que teve com Rea, Cronos, sob a forma de um cavalo, engendrou em Fílira o centauro Quíron; em outras lendas a paternidade de Hefesto e de Afrodite é atribuída a Cronos em vez de Zeus e Urano respectivamente.

Na tradição órfica a reconciliação de Cronos, longe de seus grilhões e vivendo na Ilha dos Bem-Aventurados, com seu filho Zeus, assinala o início da chamada Idade de Ouro. Nessa idade Cronos aparece em seu trono, ora em Olímpia, ora na Itália (onde foi desde épocas remotas identificado com Saturno), ou então na Sicília, ou na África. Na Idade de Bronze (ou na Idade de Ferro segundo outra versão da lenda), quando os homens revelaram a sua maldade irremediável, Cronos voltou ao Céu.

Com o nome alterado para Khronos (em vez de Kronos), essa divindade aparece em certas alusões como a personificação do Tempo.

Dicionário de Mitologia Grega e Romana, M. da G. K.

Cronos e Urano. Fonte: Quo.

Crono e Urano

Apenas o grande Crono, o de mente tortuosa, teve coragem e respondeu à sua prudente genitora com estas palavras: “Mãe, eu posso me encarregar dessa empresa, pois não reverencio nosso pai, de maligno nome, por ter sido ele quem primeiro tramou ações indignas”.

Assim ele falou, e a prodigiosa Geia sentiu grande alegria em seu coração. Colocou o filho escondido, pronto para uma emboscada, e revelou seu ardiloso plano, armando suas mãos com a foice afiada, entalhada como um aguçado dente.

Com a chegada da noite, aproximou-se Urano, desejoso de amor, e estendeu-se sobre Geia, cobrindo-a completamente. Então, de seu esconderijo, o filho estendeu a mão esquerda e o tocou. Com a mão direita, tomou a foice, semelhante a um enorme dente, e cortou rapidamente os genitais do pai, lançando-os a esmo para trás de si.

Teogonia, H.

O mito de Saturno

Um antiquíssimo deus itálico da agricultura (l. Saturnus), identificado mais tarde com o Cronos dos gregos.

Saturno teria vindo da Grécia para a Itália em épocas remotas, quando Zeus o destronou e lançou-o do alto do Olimpo à terra. Ele instalou-se na colina do Capitólio, no local onde viria a existir Roma, fundando uma povoação fortificada chamada Satúrnia e introduzindo a agricultura na região. Saturno teria sido rei de Roma, e seu reinado foi tido como a Idade de Ouro.

Celebravam-se durante três dias em dezembro as Saturnalia, festas licensiosas durante as quais desapareciam as diferenças entre as classes sociais (para relembrar a Idade de Ouro), e os escravos mandavam em seus senhores.

Dicionário de Mitologia Grega e Romana, M. da G. K.