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sábado, 20 de setembro de 2014

A TÉCNICA DO SIGNO DE VIRGEM VII


O rapto de Prosérpina, de G. Bernini (1621/22). Fonte: Hades.

Dado que o homem é tanto uma unidade de consciência como um agente para liberação de poder, ele precisa passar pela prova do sofrimento. Porque pode usar o poder inerente a seu organismo total tendo em vista objetivos vislumbrados por sua consciência, objetivos que não raro conflitam com o fim último e inexorável da evolução humana; porque pode usar suas energias de formas que violem o caráter natural do próprio poder – ele precisa experimentar dor.

O sofrimento é a sombra da vida não vivida pelo homem, a pressão da potencialidade não realizada, o tranco reativo da energia não usada. Só o homem sofre, porque só ele pode ser derrotado pela vida terrena. Ele pode conhecer a derrota, porque só ele pode experimentar vitória. Todo sofrimento é uma derrota. Pode ser uma derrota direta. Pode ser uma derrota comungada com os que são amados, com a humanidade – uma comunhão inevitável. Nenhum homem é verdadeiramente vitorioso se sua vitória acarretar a derrota de alguém. A única vitória humana é sobre a entropia da natureza – a vitória sobre a morte.

O único modo de vencer o sofrimento é o da Ressurreição. Aquele que usa o próprio sofrimento como fundamento de sua Ressurreição acaba, com o tempo, não precisando sofrer; pois a Ressurreição é o pleno viver da vida, a completa realização do potencial humano, a total liberação de energia natural, à proporção que o homem trespassa a natureza e dela volta a emergir.

Saber sofrer: eis a prova. Levar o sofrimento a atender à finalidade da Ressurreição: eis a essência do viver espiritual no homem individualizado. Usar a decepção, o medo e o fracasso como trampolins para a imortalidade: esta é a antiga e eterna técnica que conduz à final maestria. Para fazê-lo, o homem precisa assumir uma atitude corajosa em relação ao fracasso, precisa fazer uma avaliação objetiva das causas do fracasso e desprender-se emocionalmente do passado – qualquer passado.

Avaliação objetiva. Esta é a prova de visão e entendimento; um fator, depois do outro, isolados, medidos e sopesados contra o conjunto dos valores que a vida, a cultura, a sociedade e as palavras dos homens inspirados por Deus, pronunciadas em séculos há muito passados, apresentaram ao indivíduo desde o nascimento. O primeiro requisito é a capacidade de ser objetivo em relação ao fator a avaliar. Isto quer dizer separar-se desse fator; ficar só e não-identificado; romper um a um, ou num só gesto largo, a grande infinidade de laços que nos prendem a consciência à coisa nascida de nosso viver, como um rebento de nosso próprio ventre.

Mas não há que glorificar o sofrimento; ele deve ser usado. Não se deve glorificar a morte; devemos trespassá-la com um sorriso. A dor deve ser compreendida como um gesto protetor da vida; não só da vida do corpo, porém, muito mais, da vida da psique.


A dor é a guardiã de nossos tesouros não descobertos. Ela revela que nos desviamos da plenitude de nossa natureza potencial; que estamos perdendo a substância de nosso ser interior, que somos gestores ineficientes de nossas riquezas humanas.

O sofrimento não pode nunca ser um objetivo ou ter valor em si mesmo. O sofrimento é um processo de compreensão consciente de valor: é uma transição. O homem sofre por ser mais do que se acredita. O sofrimento é a condição para romper a identificação do homem com o “menos”, à medida que sobe em sua escalada para o “mais”. É a pressão de seu destino maior sobre seu apego a metas inferiores. A não ser que, por meio do sofrimento, o homem aprenda a separar totalmente sua consciência e seus sentimentos de seu passado e do passado da humanidade, seu sofrimento não terá sentido.

E é preciso compreender o passado. Dele precisamos desemaranhar a essência do “significado”. O homem que nunca olha para trás ainda tem que entender a importância do tempo cíclico.

O poder precisa ser usado, ou sofreremos. Ele deve ser usado “direito”, de acordo com seu caráter natural; do contrário, experimentaremos dor. Por ser o homem espírito, e espírito significar consciência, o poder e bem assim os mecanismos de sua liberação devem ser compreendidos com uma consciência objetiva clara. Só “compreendemos” o poder submetidos à pressão de seus possíveis efeitos. Ele deve aceitar a plena responsabilidade por essa liberação. Tudo isso junto significa sofrimento e dor, enfermidade e morte inclemente.

Será que o homem, desalentado pela monstruosa morte que produziu, vai desistir com adolescente angústia de singrar o mar desconhecido desse novo poder e procurar irracionalmente regressar ao encanto, à cultura e à paz de uma era a que a nova liberação de poder violentamente pôs fim? Acaso lamentará o passado e se entregará aos fantasmas desse passado, tão belo é ele em seu leito de morte? Ou, após um derradeiro olhar de suprema perceptividade, cortará com um corajoso golpe de espada o cabo que firma o vaso de sua alma e se lançará sobre a vasta expansão de um mundo de energias incógnitas – do qual o poder nuclear é presumivelmente apenas o limiar.

Sofrimento, dor e morte – porque isto é uma transição. A substância deles todos é a dor; e no homem, o consciente e o compreendedor é o sofrimento. O sofrimento só pode cessar com a Ressurreição, em qualquer homem verdadeiramente humano. Pois ser homem é ser incessantemente mais do que se é. Até que o indivíduo se torne Homem. Até que todos os homens vitoriosos, tendo aprendido a usar corretamente, em sua plenitude, o poder que lhes pertence em Deus, já não necessitem mais sofrer.

Tríptico Astrológico, D. R.

Alisson Batista

A TÉCNICA DO SIGNO DE VIRGEM VI


A Virgem e o menino - bizantino. Fonte: Blogue Sobre a História da Arte.

A todo homem o espírito concede um dom de acordo com sua necessidade mais característica, pois o espírito é aquele que enche todo o reservatório vazio com a radiância da satisfação. Cada receptáculo – cada tipo de ser humano – clama de suas profundezas por aquela substância inestimável que lhe serão águas vivas para a sede. No entanto, muitos avaliam mal suas mais íntimas necessidades. Vivem à superfície de si mesmos.

No tipo humano de Virgem, a própria substância da identidade consciente se encontra em “estado crítico” – num estado comparável ao que exise entre o gelo e a água líquida, quando a solidez escorrega hesitante para a liquidez desconhecida, o estático para o dinâmico, o inflexível para o multiforme.

Virgem assinala a fase da metamorfose em que o ego consciente sente o impacto do mundo de total relatividade e de participação num todo maior do qual deve ser apenas uma dentre muitas outras partes. Ele sente esse impacto, e recua com medo ou em confusão, com angústia ou dor. Suas profundezas abaladas por misteriosas revoluções, ele procura explicar, formular, criticar, fugir, inventar muitos e formidáveis substitutos, fazer-se devoto de deuses exóticos. Experimenta toda maneira possível de se manter em ação, de pensar, de avaliar – enquanto que a única coisa necessária é simplesmente estar quieto e em silêncio, para suportar a pressão da evolução, a fatalidade da metamorfose.

Mantendo um tipo de atividade mental forçada e exageradamente ansiosa, o ego brinda-se com a ilusão de que seu poder é ainda supremo. Tal comportamento indica que o ego tem, realmente, aprendido e está disposto a aprender novos meios de ajustamento à experiência. No entanto. todos esses esforços ainda são controlados pelo ego. Eles ainda dizem respeito às camadas superiores do ser, ao gargalo do vaso e não à sua profundeza interior. Não contestam o fator essencial: a qualidade do ego propriamente dito, o valor e o significado de sua autoridade ou de seus privilégios.

Significará isto, então, que o ego deve abdicar de seu domínio? Que deve deixar as potências amorfas do inconsciente irromperem à superfície do ser e devastar todas as estruturas de seu reino? O necessário, durante a crise simbolizada por Virgem, é a “transfiguração” ainda mais que a “transformação”. A substância da consciência e da identidade deve se renovar; e como subproduto dessa renovação vai necessariamente uma redeclaração de propósito.

As estruturas do ego podem ser conservadas, mas a finalidade dessas estruturas e do próprio ego deve se renovar; o conteúdo obscuro e pesado da consciência deve transformar-se em fulgor e luz. Esta é a nossa crise. Este é o nosso desafio de Virgem. Esta é a nossa necessidade. E a esta necessidade o espírito responde com uma palavra de profundo significado, ainda que pouco compreendida: tolerância.

Tolerância não é ausência de intolerância. Não significa simplesmente deixar de pôr defeitos no que os outros pensam, sentem ou fazem. Significa etimologicamente “suportar”. Suportar o quê? – O peso da necessidade de mudança e de desenvolvimento. Ser tolerante é arcar com a responsabilidade de uma busca incessante de conhecimento mais amplo, de sentimentos menos estreitos e de comportamento mais ajustável. Significa a capacidade de erguer-se em prontidão e com o coração aberto quando Deus bate à porta e chama o indivíduo – e a nação – para seus maiores destinos. É a capacidade de desenvolver-se tornando-se cada vez mais abrangente.


Tolerância não é virtude negativa. É uma atitude positiva e consciente que se refere à pessoa e a suas crenças, muito mais do que a alguma outra pessoa ou opinião. Com Virgem, o hemiciclo zodiacal iniciado em Áries chega ao fim. O dom do espírito para o tipo de atividade de Áries é o da “adaptabilidade”. Mas, no estágio de Áries da resposta humana, a adaptabilidade à vida opera essencialmente ao nível instintivo, ou pelo menos acional. Deve tornar-se, no estágio de Virgem, uma clara compreensão de que nenhuma verdade é completa, ou sequer real, se não incluir o seu oposto – e tudo o mais que ocorrer entre ambos!

Apenas essa compreensão pode ser o fundamento da verdadeira tolerância. A tolerância é a disposição de aceitar as crucificações que representam os resultados inevitáveis da aceitação de todos os opostos, o necessário prelúdio da abrangência e da integração. É a essência dinâmica do desenvolvimento da consciência do homem – o caminho para a divindade.

A tolerância, a compaixão e a caridade são as três grandes virtudes cuja aquisição favorece o caminho do tipo de pessoa de Virgem – e, em maior ou menor grau, de todos os seres humandos. A tolerância diz respeito mais especificamente à mente, a compaixão ao coração, e a caridade refere-se mais aos domínios da ação; entretanto, todas as três são manifestações da mesma raiz profunda – a disposição a desenvolver-se por efeito de experimentar e assimilar aspectos sempre mais numerosos e variados da verdade, do amor e da ação sacrificial.

Essas três grandes virtudes favorecem o caminho de Virgem, porque nesse caminho encontra-se uma especial necessidade delas. Nesse caminho de crise e de reorientação pessoal, é tão fácil concentrar-se nas tribulações imediatas que os obstáculos ao desenvolvimento são magnificados a expensas da clara compreensão da finalidade que a crise deve revelar ao homem que a aceita sem ressentimento, rebelião ou angústia.

A preocupação de Virgem com detalhes de trabalho, com técnica, com saúde e higiene, com vivissecções analíticas de si mesmo e dos outros é, na realidade, uma focalização nos valores negativos da crise. Todas essas características tradicionais de Virgem devem ser apresentadas tais quais realmente são: paliativos e substitutos do único grande esforço realmente necessário.

A grande crise do desenvolvimento pessoal que vem com o simbolismo de Virgem implica não só uma mudança nos conteúdos do corpo ou do ego, mas um enfoque inteiramente novo do próprio continente. Purificar o corpo ou o ego não é o bastante. Absorver a sombra que eles projetam, “saltar sobre ela” e assim dissolvê-la ou dissipá-la: é este o grande problema a cuja solução a crise da metamorfose pessoal deve ser dedicada.

Essa operação misteriosa e intrigante está ao fundo de todos os esforços menores que caracterizam a fase de Virgem da evolução humana. É a “grande obra” dos verdadeiros Alquimistas. O caminho para a divindade é através de nossa própria sombra. O modo de assimilar toda a verdade é assimilar o ego que procura conhecer toda a verdade.

Tríptico Astrológico, D. R.

Alisson Batista

A TÉCNICA DO SIGNO DE VIRGEM V


Ceres e o cinturão de asteroides. Fonte: World News.

O regente estabelecido do signo de Virgem é Mercúrio. Assim, repetiremos o texto sobre este planeta já postado lá no signo de Gêmeos. Um dia, talvez, virá algo mais sobre Ceres, o asteroide. Espero que gostem.

Mercúrio

O planeta Mercúrio aparecia aos antigos (e ao nosso olho nu hoje) apenas no horizonte, onde percorria o limbo crepuscular entre o dia e a noite. O célere Mercúrio anunciava o Sol da madrugada ou o perseguia no arrebol. Outros planetas - Marte, Júpiter, Saturno - podiam ser vistos brilhando a noite inteira, a pino no firmamento, durante meses a fio. Mercúrio, porém, sempre se esgueirava das trevas para a luz, ou vice-versa, esquivando-se de ser visto depois de uma hora.

A proximidade com o Sol domina todas as condições da existência do planeta - não apenas seu avanço a pleno galope pelo espaço, que é tudo que podemos entrever facilmente da Terra, mas também seu conflito interno, seu calor, seu peso e a história catastrófica que o reduziu a dimensões tão pequenas (apenas um terço do diâmetro da Terra).

A atração de uma estrela tão próxima impulsiona Mercúrio a percorrer sua órbita a uma velocidade média de 48 quilômetros por segundo. Tal rapidez, quase o dobro do ritmo da Terra, faz com que Mercúrio demore apenas 88 dias terrestres para completar sua jornada orbital. Como ele avança tão mais depressa do que gira, um ponto qualquer em sua superfície precisa aguardar meio ano mercuriano (cerca de seis semanas terrestres) após o alvorecer para receber a luz plena do meio-dia. Assim, os anos correm num piscar de olhos, mas os dias arrastam-se para sempre.

O dia nascce em Mercúrio num calor infernal. O Sol circunvizinho cambaleia pelo céu negro e fica lá, pairando, enorme, com um diâmetro aparente quase três vezes maior do que o orbe familiar que vemos aqui da Terra.

Algumas regiões de Mercúrio aquecem-se a ponto de derreter metal à luz do dia e então se regelam a centenas de graus abaixo de zero à noite; temperaturas tão extremas não coexistem em nenhum outro lugar do Sistema Solar.

Superfície de Mercúrio. Fonte: NASA - messenger.

O contraste dramático entre dia e noite compensa a ausência de alternância entre as estações. Mercúrio não possui estações de verdade, pois gira ereto sobre seu eixo, e não inclinado como a Terra. Luz e calor sempre atingem o equador mercuriano em ângulo reto, enquanto os pólos norte e sul, que não recebem luz solar direta, permanecem relativamente frígidos o tempo todo.

O planeta só se torna aparente à vista normal quando sua órbita o leva bem para o leste ou oeste do Sol nos céus da Terra.

Mesmo quando Mercúrio se encontra mais próximo da Terra, 80 milhões de quilômetros continuam separando-o de nós – uma distância nada desprezível, se comparada com a distância média da Lua, que é de apenas 400 mil quilômetros.

O planeta gira em torno de seu eixo uma vez a cada 58,6 dias – um ritmo de tal forma encadeado com o seu período orbital (87,9 dias) que ele completa exatamente três voltas em torno de si a cada duas jornadas em torno do Sol.

Só agora no século XXI estaremos em melhores condições de saber mais sobre este planeta veloz e esquivo que é de difícil visualização por causa da proximidade com o Sol e que tem sido localizado nos céus somente pelos mais diligentes e sortudos observadores ao longo da história.

Os Planetas, D. S.

Alisson Batista

A TÉCNICA DO SIGNO DE VIRGEM IV


A Virgem com o menino, de Masaccio. Fonte: Art Invest 2000.

Azul como a cor da Virgem

O azul e o branco, cores marianas, exprimem o desapego aos valores deste mundo e o arremesso da alma liberada em direção a Deus, i.e., em direção ao ouro que virá ao encontro do branco virginal, durante sua ascensão no azul-celeste. Reencontra-se aí, portanto, valorizada positivamente pela crença no Além, a associação das significações mortuárias do azul e do branco.

Em geral, quando se faz a promessa de trazer uma criança vestida sempre de branco ou de azul, em honra da Virgem, trata-se de crianças impúberes, i.e., ainda não sexuadas, ainda não plenamente materializadas: crianças que não pertencem de modo algum a este mundo; e que, justamente por isso, são capazes de responder, mais facilmente, ao chamamento azul da Virgem.

Ora, o signo da Virgem, na roda zodiacal, corresponde à estação das colheitas, ocasião em que a evolução primaveril já se realizou, e vai ceder lugar à involução outonal.

O signo da Virgem é um signo centrípeto como a cor azul, e que vai despojar a terra de seu manto de verdura, desnudá-la, dessecá-la. É o momento da celebração da Assunção da Virgem-Mãe, festa que se realiza sob um céu sem véus, onde o ouro solar se faz fogo implacável e devora os frutos maduros da terra.

Em certas regiões da Polônia, subsiste ainda o costume de se pintar de azul as casas das jovens casadoiras. Essa cor azul-celeste é, no pensamento dos astecas, o azul-turquesa, a cor do Sol, por eles denominado Príncipe de Turquesa; era um sinal de incêndio, de sequidão, de fome, de morte. Mas Chalchihuitl é também essa pedra verde-azulada, a turquesa, que ornava a vestimenta da deusa da renovação. Quando morria um príncipe asteca, antes de incinerá-lo substituía-se seu coração por uma dessas pedras.

Dicionário de Símbolos, C. & G.

Alisson Batista

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A TÉCNICA DO SIGNO DE VIRGEM III


Ísis. Fonte: Dicionário de Símbolos.

Deméter

Deusa da fertilidade, deusa maternal da terra, Terra-Mãe, cujo culto remonta à mais remota Antiguidade, e se reveste dos maiores mistérios, Deméter ocupa o centro dos mistérios iniciáticos de Elêusis, que celebram o eterno recomeçar, o ciclo das mortes e dos renascimentos, no sentido, provável, de uma espiritualização progressiva da matéria.

Deméter se revela como deusa das alternâncias entre a vida e a morte, que marcam o ritmo das estações, o ciclo da vegetação e de toda existência. Ela participa, por essa forma, do simbolismo da terra-mãe. Mas distingue-se da terra, elemento cosmogônico (Gaia, Réia) no fato de simbolizar a terra cultivada, a que produz o trigo e todas as ricas searas.

Deméter simboliza, com efeito, uma fase capital na organização da terra: a passagem da natureza à cultura, do selvagem ao civilizado.

Segundo a interpretação psicanalítica de Paul Diel, Deméter, que deu aos homens o pão, símbolo do alimento espiritual, lhes dará o sentido verídico da vida: a sublimação-espiritualização do desejo terrestre, i.e., a libertação com respeito a toda exaltação como a todo recalque.

Deméter se afirma, assim, como o símbolo dos desejos terrestres justificados, que encontram satisfação graças ao esforço engenhoso do intelecto servidor, o qual, cultivando a terra, permanece assim mesmo acessível ao apelo do espírito. E, todavia, Deméter, a fecundadora maternal e espiritual, não se iguala ao espírito como Hera, esposa de Zeus. Ela não é a luz, mas o caminho para a luz, ou o archote que ilumina esse caminho.



Ísis

A mais ilustre das deusas egípcias. Ela protege os mortos debaixo das suas asas e ressuscita-os. Todo ser vivo é uma gota do sangue de Ísis.

“Eu sou a mãe e a natureza inteira, senhora de todos os elementos, origem e princípio dos séculos, divindade suprema, rainha das almas dos mortos, primeira entre todos os habitantes do céu, tipo único dos deuses e das deusas. Os píncaros luminosos do céu, os sopros salutares do mar, os silêncios desolados dos infernos, sou eu quem tudo governa segundo a minha vontade”.
(citado por Serge Sauneron)

Em todos os círculos esotéricos, ela será considerada como a Iniciadora, aquela que detém os segredos da vida, da morte e da ressurreição.

Dicionário de Símbolos, C. & G.

Alisson Batista

A TÉCNICA DO SIGNO DE VIRGEM II



Deméter

Filha de Cronos e de Rea, pertencente portanto à segunda geração divina, dos deuses olímpicos. Divindade por excelência da terra cultivada, Deméter é especialmente a deusa do trigo. Tanto em sua lenda quanto em seu culto Deméter aparece estreitamente ligada a Perséfone, sua filha com Zeus, sendo as duas geralmente juntas sob a denominação, usada com frequência, de “as deusas” (sozinha Deméter era chamada de “deusa-mãe”).

No momento em que a terra se abriu a fim de permitir que Hades levasse Perséfone para os seus domínios, esta gritou e Deméter ouviu e correu angustiada com a intenção de socorrê-la, mas já não a encontrou. Desde esse momento a deusa passou a percorrer o mundo à procura da filha, sem se deter sequer para comer, beber ou repousar.

Afinal Hélios (o Sol) onividente revelou-lhe os acontecimentos (em outra versão da lenda essa revelação teria sido feita pelos habitantes de Hermione, na Argolis). Desesperada, Deméter resolveu abster-se de fazer germinarem os grãos semeados na terra até que sua filha reaparecesse.

A deusa Ceres. Fonte: The Inner Wheel.

A abstenção de Deméter em relação à sua função de fazer a terra produzir cereais tornou os campos estéreis, pondo em perigo a sobrevivência das criaturas humanas. Zeus, preocupado com a situação, ordenou a Hades que entregasse Perséfone a Deméter. Essa ordem, todavia, não pôde ser cumprida integralmente porque Perséfone havia quebrado o jejum no inferno, comendo alguns grãos de romã, prendendo-se assim ao reino de Hades.

Para solucionar o impasse Zeus determinou que Perséfone vivesse uma parte do ano com sua mãe e a outra parte no inferno com Hades. Graças a essa decisão Perséfone saía das profundezas da terra na primavera e subia ao céu quando se abriam no solo as primeiras sementeiras, retornando ao inferno no outono, quando começavam as colheitas. Seu afastamento de Deméter coincidia com o inverno, durante o qual a terra nada produzia.

Ceres

Divindade romana antiquíssima equivalente à deusa grega Deméter, com a qual veio a identificar-se. Etimologicamente Ceres é uma divindade da agricultura (seu nome significa “pão” no dialeto sabino), cultuada pelos latinos desde épocas remotas, mas assimilada de longa data a Deméter.

Dicionário de Mitologia Grega e Romana, M. da G. K.

Alisson Batista

A TÉCNICA DO SIGNO DE VIRGEM I


A constelação de Virgem. Fonte: Mexican Skies.

Segue a série de resumos e fragmentos de mitos, símbolos, imagens e palavras, todos com o intuito de promover a atmosfera ou o perfume de cada uma das doze estações que completam o ciclo zodiacal.

Está na vez do signo de Virgem, que encerra a sua participação em 22 de setembro, na próxima segunda-feira.

Seguindo o rito, em primeiro lugar, veremos algo sobre o que o signo de Virgem simboliza,  algo sobre a virgindade e as Virgens, mas também algo sobre o símbolo da espiga – associado ao signo de Virgem.

Mais adiante, falaremos sobre as figuras femininas associadas ao signo – Deméter, Ceres e Ísis; e sobre a cor azul da Virgem. O planeta Mercúrio voltará do signo de Gêmeos para reger também o signo de Virgem e, por fim, uma abordagem mais filosófica sobre o período solar que já está por terminar.

Mais uma vez, espero que gostem.


Virgem como um símbolo

Sexto signo do Zodíaco que se situa antes do equinócio de outono. Símbolo de colheita, de trabalho, de destreza manual, de minúcia; é o segundo signo de Mercúrio que, neste caso, atua de um modo mais baixo, mais terrestre e prático do que no signo de Gêmeos, que corresponde ao aspecto aéreo do mensageiro dos deuses.

Com Virgem, estamos no final do ciclo anual do elemento Terra; antes da terra fria de Capricórnio, a das semeaduras de inverno; depois da terra rica, úmida e quente de Touro, coberta da vegetação verde e perfumada da primavera. Aqui, apresenta-se uma terra ressecada pelo sol estival, de virtudes nutritivas esgotadas, sobre a qual a espiga ceifada espera que o grão se solte do seu invólucro.

O ciclo vegetal se completa numa nova terra, virgem, destinada a receber a semente mais tarde. Daí vem a representação do signo por uma jovem, virgem alada que segura uma espiga ou um molho de trigo. Mercúrio é o planeta que a rege: na época da colheita e do enceleiramento, em que o resultado é pesado e calculado, estamos, de fato, num mundo que se diferencia, se particulariza, se seleciona, se restringe, se reduz, se despoja, determina para si limites precisos.

Trata-se de uma disposição geral de reter, controlar, dominar-se, disciplinar-se; de uma tendência à economia, à parcimônia, ao acúmulo, à conservação, à temporização; de um caráter sério, consciencioso, escrupuloso, reservado, cético, metódico, ordenado, ligado aos princípios, às regras, às recomendações, sóbrio, cioso do senso cívico e da respeitabilidade, trabalhador, voltado para as coisas difíceis, laboriosas, ingratas ou penosas, visando sobretudo a satisfazer um sentimento de segurança...

No Egito, era o signo de Ísis. Tem relação com o fogo e a água, simultaneamente, e simboliza a consciência emergindo da confusão, assim como o nascimento de espírito.


A virgindade e as virgens

O símbolo da Virgem, Mãe divina enquanto Theotokos, designa a alma na qual Deus recebe-se a si mesmo, gerando-se em si mesmo, pois só ele é.

A Virgem Maria representa a alma perfeitamente unificada, na qual Deus tornou-se fecundo. Ela continua virgem, pois continua intacta em relação a uma nova fecundidade.

A criança divina nasce sem intervenção do homem no mistério cristão que justamente neste aspecto coincide com os mitos da Antiguidade, que representam o nascimento milagroso do herói.

A Virgem Mãe de Deus simboliza a terra orientada para o céu, que se torna também uma terra transfigurada, uma terra de luz. Daí vêm o seu papel e a sua importância no pensamento cristão, enquanto modelo e ponte entre o terrestre e o celeste, o baixo e o alto.

As virgens negras simbolizam a terra virgem, ainda não fecundada; valorizam o elemento passivo do estado virginal.

Fertilidade do solo. Fonte: Centro de Produções Técnicas (CPT).

O trigo...

Certa cerimônia dos mistérios de Elêusis coloca em perfeito relevo o simbolismo essencial do trigo. No decurso de um drama místico, comemorativo da união de Deméter (Ceres) e Zeus (Júpiter), era apresentado um grão de trigo, como uma hóstia no ostensório, que se contemplava em silêncio. Era a cena da epopsia, ou da contemplação.

Através desse grão de trigo, os epoptas prestavam honras a Deméter, a deusa da fecundidade e iniciadora aos mistérios da vida. Essa ostensão muda evocava a perenidade das estações, o retorno das colheitas, a alternância da morte do grão e de sua ressurreição em múltiplos grãos. O culto da deusa era a garantia dessa permanência cíclica.

Por evocar a morte e o renascimento do grão, a emocionante cerimônia foi relacionada com a evocação do Deus morto e ressuscitado, característica dos cultos ao mistério de Dioniso, mas essa interpretação seria apenas uma derivação da primeira.

O profundo simbolismo do grão de trigo talvez se enraíze também em um outro fato assinalado por Jean Servier. A origem do trigo é completamente desconhecida, como a de muitas plantas de cultivo, em especial a cevada, o feijão e o milho. Pode-se multiplicar as espécies, enxertar algumas, melhorar a qualidade de outras – mas nunca se conseguiu criar trigo ou milho, ou qualquer dessas plantas alimentícias básicas. Elas surgem, portanto, essencialmente e em diferentes civilizações, como um presente dos deuses, ligado ao dom da vida.

O trigo simboliza o dom da vida, que não pode ser senão um dom dos deuses, o alimento essencial e primordial.

... e as espigas

Nas civilizações agrárias, a espiga é o filho nascido da hierogamia fundamental Céu-Terra. É a resolução dessa dualidade fundamental; e é por esse motivo que, em sua qualidade de síntese, a espiga de milho ostenta simultaneamente a cor feminina da terra vermelha e a cor máscula do céu azul: “A espiga de milho feminina é coberta pela abóbada azul do céu masculino”.

Para os índios da pradaria, “a espiga de milho representa o poder sobrenatural que habita H´Uraru, a terra de onde provém o alimento necessário à vida; e é por isso que nós lhe damos o nome de Atira, a mãe que insufla a vida. O poder inerente à terra, e que a torna capaz de produzir, vem do alto, e é por isso que nós pintamos de azul a espiga do milho”.

Fez-se da espiga de milho o atributo do verão, estação das colheitas de cereais; de Ceres, a deusa da agricultura, que deu o trigo aos homens e que é geralmente representada com um punhado de espigas nas mãos; da Caridade e da Abundância, que distribuem espigas em profusão e todos os alimentos que as espigas simbolizam. A espiga contém o grão que morre, seja para nutrir ou seja para germinar.

Em geral símbolo do crescimento e da fertilidade; alimento e sêmen ao mesmo tempo. Indica a chegada à maturidade, tanto na vida vegetal e animal quanto no desenvolvimento psíquico: é o desabrochar de todas as possibilidades do ser, a imagem da ejaculação.

Dicionário de Símbolos, C. & G.


Alisson Batista